As crianças de hoje tem acesso imediato a tudo o que acontece no mundo; dúvidas? Acessem o Google tudo se resolve.<br><br>Mas assim não era no "nosso tempo", principalmente aqui em São Paulo, onde os que vinham de famílias humildes e sem muita cultura, não tinham chance de terem suas perguntas respondidas com facilidade; e, naquela época, a cidade e a cultura já assimilada de várias partes do mundo apresentavam para nós, crianças, muitos pontos de interrogação.<br><br>Quarta série primária, a professora olha para a classe e diz:<br><br>"A partir do próximo ano, terá prova obrigatória para ingresso ao ginásio e àqueles que não passarem, restam as escolas particulares ou as bolsas de estudo. Até logo, transmitam aos seus pais."<br><br>Íamos para casa tentando imaginar o tamanho que precisaria ter essa tal bolsa para caber tanta criança que não passasse na prova de admissão.<br><br>Quarta-feira de cinzas, a família:<br><br>"Vamos à missa, receber as cinzas."<br><br>Íamos; e voltávamos com aquela mancha de carvão na testa, caindo pela roupa toda. Nem podíamos perguntar que cinzas eram aquelas.<br><br>Sábado de aleluia, 12 horas, a família, de novo:<br><br>"Corre para lavar os olhos, a água do meio dia é benta, depois pode ir assistir à malhação do Judas."<br><br>A gente imaginava a ligação de uma coisa com outra: será que lavando os olhos podia bater em alguém à vontade?<br><br>31 de dezembro, reunião de família:<br><br>"Vai lá pedir ‘bom princípio’ pra todo mundo que chega e presta a atenção no padrinho, que o ‘bom princípio’ dele é gordo".<br><br>Lá íamos nós, receber as moedas de final de ano, tentando imaginar onde era o “bom princípio” do padrinho: cabeça? perna? barriga? sabe Deus onde era.<br><br>Nossa infância realmente era muito diferente da atual; não era muito bom perguntar, pois às vezes a resposta era assustadora, como no dia em que criamos coragem e insistimos em saber a origem das cinzas que era colocada em nossas cabeças na quarta-feira de cinzas. <br><br>Soubemos! E antes não tivéssemos perguntado.<br><br>Pois é, como resquício das memórias infantis, rogamos que o Senhor nos livre do malamem e desejamos um ‘bom princípio’ a todos!<br><br><br>E-mail: [email protected]