Ele vinha mesmo! O show iria ser no estádio do Morumbi às nova horas da noite e era preciso correr para comprar ingresso.<br><br>Nos locais de venda já haviam esgotado era preciso tentar na internet, mas no meu caso meu limite seria o ingresso de 200 reais porque os melhores custavam mais de 500 reais e já haviam esgotado.<br><br>Tentei de todas as maneiras comprar pela web, mas as conexões caiam toda hora, o site estava congestionado e não teve jeito. De repente aparece: vendas encerradas, meu Deus não consegui! E agora? Há mais de 40 anos esperava ouvi-lo e vê-lo ao vivo cantando as musicas que determinaram meu gosto musical e um destino.<br><br>Mas não foi possível comprar!<br><br>Vou tentar na porta do estádio na hora do show.<br><br>Foi o que fiz, logo antes do show cheguei à porta do estádio e no meio da multidão tentei achar alguém que tivesse um ingresso para vender, cambistas não porque os mais baratos eles estavam vendendo pelo menos por 600 reais e eu só com 200!<br><br>Fui perguntando e nada e o povo entrando e a hora do show se aproximando.<br><br>Deu 21 horas fecharam os portões, mas não desisti fiquei tentando mas logo percebi que não ia conseguir. Não estava no meu destino ver a lenda ao vivo.<br><br>Fiquei por ali quando de repente comecei a ouvir ao longe, difuso, em meio ao rumor surdo da multidão os primeiros acordes e a voz inconfundível: "baby you can drive my car… and baby i love you…”<br><br>Fui ficando e tentando ouvir pedaços das musicas que atravessaram todos os momentos de minha vida e lembrando das pessoas com as quais compartilhei minha paixão. “… In my life i love then all… day after day alone on the hill, I read the news today oh boy, she love you, yesterday all my life seen so far away, Hey Jude don't take it bad, Paperback writer, writer.,Mister Moonlight!”.<br><br>E foram muitas as musicas que tentei ouvir do lado de fora completando-as com minha memória.<br><br>De repente o povo começou a sair. O show tinha terminado. Três horas passaram voando e era possível ver em todos os semblantes numa espécie de aura, o júbilo e a emoção, porque, aquela maioria de jovens que saiam do estádio, haviam sido ungidos para sempre pela arte inesquecível e eterna de um artista verdadeiro, saiam transformados em outra pessoa, melhores em dúvida, como eu me transformei quando também pela primeira vez ouvi, há mais de 40 anos, e fui também marcado para sempre.<br><br>Fui vendo todos saírem e aos pouco as ruas em torno foram ficando vazias e silenciosas. Aos poucos fui caminhando pela noite agora calma, triste, porém ouvindo dentro mim a trilha sonora de minha vida: Help, Rubber Soul, Revolver, Beatles 65, Beatles Again e fui caminhando pela rua vazia e me distanciando das luzes agora se apagando do estádio.<br><br>De repente noto que vem pela rua uma enorme limusine negra que ao se aproximar de mim teve que diminuir muito a marcha em vista de um redutor e foi quando meio distraído olhei pela janela de trás entreaberta e num susto o vejo. Era ele! Estava indo para seu hotel.<br><br>Ele olha pra mim e na minha expressão de incredulidade, deve ter notado na minha mão o folheto do programa do show que estavam distribuindo na entrada, olha e me acena com aquele seu olhar de gente boa.<br><br>Eu meio aparvalhado tento retribuir o aceno quando ele num gesto pede ao motorista para parar o carro e me chama com um aceno.<br><br>Meu Deus, ele está me chamando! Que eu faço? Meio assustado me aproximei e ele diz pausadamente: Do you liked the show?<br><br>Eu buscando meu inglês que aprendi a duras penas traduzindo letras de musicas dos Beatles, respondi meio gaguejando: sorry Paul, but i could not see!<br><br>Ele meio contrariado diz (em inglês claro, mas vou traduzir) Você não pôde ver? Não, eu disse, não consegui ingresso, fiquei o tempo inteiro na parte de fora do estádio tentando ouvir os sons que chegavam difusos de cada música e de sua voz.<br><br>Foi quando, milagre, ele me pede para entrar no carro e sentar ao seu lado. Foi querendo saber porque, quando eu tinha ouvido os Beatles pela primeira vez, as musicas que eu conhecia, sorriu quando percebeu que eu sabia todas as letras de memória.<br><br>Contei que nasci há poucos quilômetros dali numa pequena rua num pequeno bairro e ele perguntou se era longe, disse que não, 10 ou 15 minutos, ainda mais naquela hora da madrugada.<br><br>Ele falou para o motorista: Go there! Vamos para lá, vá mostrando o caminho.<br><br>Logo depois a enorme limusine negra foi entrando lentamente na Rua Gaspar Soares, adormecida, no coração do Jardim São Paulo e parou, em frente ao predinho onde morei e eu disse foi aqui naquele muro onde eu e meu amigo Paulo ouvimos pela primeira vez em 1964 a musica I wanna hold your hand e deu no que deu.<br><br>Ele, fascinado disse que nunca pôde ouvir de um fã uma historia assim e de como tudo podia começar de forma simples e marcar a vida de uma pessoa.<br><br>Ele pede para descermos do carro e encostarmos no mesmo muro onde num passado distante eu e meus amigos fomos transformados por sua musica.<br>Senti que ele estava emocionado e eu com medo de aparecer alguém e de repente me ver ali parado ao lado de Paul McCartney, o mito.<br><br>Mesmo vendo ninguém iria acreditar e eu só desejando que lá também estivessem os amigos daquele tempo pra verem que eu tinha levado o Paul até a Gaspar.<br><br>Ele disse que também na sua cidade natal, Liverpool, a rua onde nasceu e viveu até os 14 anos era simples assim, uma rua de trabalhadores e gente honesta.<br><br>Eu sorri, quando ele foi até o carro e tirou da mala um maravilhoso Martin D28 com tampo de abeto branco onde podia ver sua assinatura junto às tarraxas de afinação e diz: Vou fazer uma homenagem a sua rua, seus amigos e claro, para um fã sincero e verdadeiro como você, e ouvi os primeiros acordes e sua voz entoar os primeiros versos da canção belíssima:<br><br>"…the long and winding road…<br>that leads to your door…"<br><br>Sua voz inconfundível foi se avolumando e ocupando os espaços da rua se espraiando pela noite e foi como se o tempo parasse ou voltasse ao momento em que tudo teve inicio e eu entendi que podia ser jovem novamente e o mundo podia ser redescoberto, ou melhor, pude ver que dentro de mim ainda mora o jovem que um dia se emocionou com aquela musica e se transfigurou para sempre.<br><br>Thank you Paul! God bless your life forever!<br><br><br>E-mail: [email protected]