Era o dia 18 de junho de 197…, ou talvez não, talvez eu tenha me enganado e tenha acontecido em outro dia qualquer, afinal, exceto alguém como Fernando Pessoa, que nunca esqueceu e deixou para a posteridade o dia 08 de março de 1914, a hora e o local em que "lhe surgiu" Alberto Caeiro, causando uma "ruptura definitiva em sua vida", quem é que dá atenção a essas coisas tão insignificantes que vêm e mudam nossa vida de uma forma tão perturbadora que nunca mais a recolocamos nos trilhos?
Coisas como, por exemplo, o momento exato da percepção da mortalidade.
Era um dia qualquer, talvez este seja um início mais adequado para o meu texto, em um ano que não sei. Sei que eu era outro, não tinha muitas das coisas boas que hoje tenho, mas também não tinha nenhuma dessas outras, as péssimas, que inda carrego.
Era um tempo de fazer e não projetar; era um tempo de ir, não de ficar e eu, fundamentalmente, creio que ainda desconhecia os múltiplos “eu” que há em mim.
Mas, a solução deste tempo, que este tempo diluiu, deixou em mim a certeza que, se bem vivi, vivi de uma forma plena somente até aquele momento. O momento mágico em que entendi que o mundo não estava bem ali onde eu pensava, mas alhures, em outra fronteira.
Foi assim: tomava um trem qualquer, e não tinha destino. Aí, em uma banca de jornal, na Avenida Paulista, perto de onde hoje está a estação Brigadeiro, saia do atual prédio da FGV, quando inesperadamente travei meu primeiro contato com Góngora, creio que na seleção "pensamento vivo".
Andei por ali como se estivesse em Córdoba, entrei no restaurante "A Fazendinha", notei que errara o ponto, saí rapidamente, atravessei a Brigadeiro, tomei um chopp gelado acompanhando um rançoso pastel de queijo.
O tempo urgia e eu, ainda parafraseando Pessoa, descobri que não sabia – como ainda não sei – o que o amanhã trará.
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