Meu primeiro terno

Como a nossa musa Doris Day lembrou do seu primeiro Tailleur, veio a minha cabeça meu primeiro terno. Quando dos meus anos de criança em que brincávamos na rua todo sujo de terra, que quando chegava em casa tinha que se lavar na base do caco de telha para tirar o cascão. E quem fazia isso era a Mãe. Quando da volta da escola mal almoçava já estava na rua, e nas férias a gente jogava bola o dia inteiro no campo do Cometa. Que dava fundos para o córrego da traição, frente para a Rua Brejo Alegre e a lateral do campo para a Rua Cação. Brooklin Novo, na divisa com a Vila Olímpia. Divisa essa feita pelo córrego. O jogo rolava com todos os moleques despreocupados com a hora. Começava logo pela manhã 9 horas e ia em frente. De repente vinha aquela gritaria. Mário vem almoçar. Cláudio já para casa. Chico, que é, se esqueceu da sua casa? Eram as mães chamando seus filhos para almoçar. Os ponteiros estavam juntinhos marcando meio dia. Mas ninguém queria ir. O jogo estava empatado em 11 x 11. E todos gritavam: Pêra mãe! Quem marcar mais um ganha o jogo. E como demorava, para sair aquele gol. Passes calculados, muita atenção para não errar, e levar o gol. E as mães nervosas pela demora. Quando chegava em casa tomava uns tapas, não só por demorar, mas por estar todo sujo de terra preta. Quando já todos nos tínhamos seus 14, 15, anos, não mais andávamos descalços ou de tamancos. Estávamos de olho nas "minas" começamos a querer nos vestir melhor. As calças curtas iam ser substituídas por uma calça comprida. Sapatos bem engraxados. Afinal nenhuma menina ia dar bola para moleque de rua. Então os pais foram comprar uma roupa melhor para seus filhos.
Seu Manoel oriundo de Guaxupé (Sul de Minas) comprou calça e camisa cor caqui, e uma botina cor de laranja para o Getulio. Era o jeca tatu perfeito, segundo a gozação da mulherada, que gostava de ficar debruçada num muro. Dona Stella, já foi mais prestimosa. Comprou uma calça azul marinho e uma camisa branca para o gordinho (Cláudio). Já meu pai trouxe da Rua José Paulino uma calça marrom, a chamada calça pula brejo, 15 cm acima do tornozelo. Segundo as línguas éramos uns verdadeiros palhaços fazendo footing na quermesse da igreja do Divino Salvador, (Rua casa do Ator) ou então na quermesse da igreja de Santa Terezinha do Itaim Bibi (Rua Tabapuã) ambas na mesma época, (festa junina, como se dizia). Quem se propôs a dizer para as outras mães que estávamos na boca dos outros como “os bocós da Vila” foi dona Stella, a fofoqueira do bairro, que andava de portão em portão, bisbilhotando a vida alheia. Então num domingo em que a molecada foi na minha casa assistir o circo do Arrelia, (1957) minha mãe disse que tínhamos que nos portar melhor, e vestir uma roupa mais simples sem querer aparecer com o cabelo cheio de Brilhantina ou glostora (O Gel de Hoje) fazendo pose para as meninas, etc. Aí a rapaziada começou a ficar numa diferente. Quando não estava com aquele sapato de ir à escola, ou na missa, estávamos de palagarta, (alpargatas roda) que era de lona por cima e de corda no solado. Quando eu estava com meus 18 anos, veio o convite para o casamento da Neide, irmã do Cezar, o goleiro das peladas do futebol. Ela ia se casar com Moisés também nosso amigo. Foi ai que percebi que estava na hora de andar com uma roupa melhor. Um terno, que até então eu não tinha.
Minha mãe sugeriu ir a EXPOSIÇÃO / CLIPPER, que ficava na Praça do Patriarca. Já meu pai dizia que se eu fosse à DUCAL me daria melhor. A Ducal era na Rua Direita, bem próxima da Praça do Patriarca. Mas ao chegar à cidade e subir os degraus da galeria Prestes Maia, que ligava o Anhangabaú ao centro velho, dei de cara com uma senhora "mina". Pensei. É com essa que eu vou. Não ia esperar ela me dar bola. Mesmo porque nossa vizinha, dona Iésse, dizia que eu tinha cara de macaco. Coisa que, me olhando no espelho achei que ela tinha razão. Fui, na cara dura, pra cima da moça. Ela já estava fora do raio de ação das lojas A Exposição e DUCAL, encostei-se a ela e fui dizendo;
– E ai, tudo bem?
– Ah, vê se vai, seu idiota!
Bem, como a coisa não estava para mim em termos de namorada, o negócio era comprar o terno. Mas se não deu certo para conquistar a "mina". Foi bom para a compra do terno. Estava na Rua XV de Novembro, quando dei de cara com a loja GARBO. Lembrei-me da propaganda que ela fazia no rádio.
Você precisa de uma roupa nova, loja Garbo tem a roupa que lhe fica bem. Para Homens, Rapazes e Meninos, o mais completo figurino. Você precisa de uma roupa nova, lojas Garbo têm a roupa que lhe fica bem. Muito bem.
Era um sábado, dia 28 de junho de 1958. Véspera do jogo Brasil x Suécia, para se ver quem seria o campeão do mundo.
Comprei um terno Azul Marinho. A prestação. Pela primeira vez fiz um carne de pagamento. Me senti gente grande. Ao chegar em casa coloquei o terno acompanhado por uma camisa branca e uma gravata azul com listras vermelhas, sapato Scatamaquia. E disse: Batuta, ein Mãe? Custou 120 me reis!