Quando chega o verão, chega junto a chuva, anunciando uma boa temporada de raios, enxurrada e inundação. Meus pais sempre dizem:
– Nossa terra da garoa é também terra de grandes chuvas…
E isto tenho presenciado por muitos anos, contudo, vou mencionar apenas o que é um aguaceiro aos olhos de uma criança.
Parece que foi ontem que uma chuva torrencial caiu na Rua dos Democratas, onde morávamos. Ela veio com granizo e muitos relâmpagos, e minha mãe bradou: "Fiquem longe das tomadas! Apaguem as luzes! Fechem as janelas!”. Mas nos meus oito anos de idade, aquele não era um temporal, era um show de sorvete caindo do céu!
Entramos em nosso quarto e, através da janela semi-aberta, lançamos uma peneira e alegres recolhíamos o granizo ali depositado; alguns do tamanho de uma bola de gude.
Ah! Que delícia! Granizo com gotas de limão e açúcar. Você pode pensar que era loucura, mas, para quem ainda não tinha geladeira em casa, este era um motivo para uma grande festa infantil.
Numa outra ocasião, novo temporal e um pedaço de pano foram ingredientes suficientes para muita alegria. Após uma grande ventania, um pano de chão arrancado do varal foi levado para o ralo. A abundante chuva que se seguiu, não deixou a água do quintal escoar e vimos pela janela a água subir.
Mamãe, devido à tempestade, ficou retida no empório, perto de casa, esperando o aguaceiro passar e nós – eu e mais quatro irmãos – vimos aí a oportunidade de desfrutarmos de uma piscina particular. Pegamos a bóia (câmara de pneu), o imenso guarda-chuva de meu pai e um rodo, e lá fomos curtir nosso quintal inundado. Com o rodo, fazíamos onda e continuávamos olhando para o céu, pedindo que viesse mais água a encher o quintal e impedir mamãe de voltar para casa.
O que aconteceu? Nem uma coisa nem outra. De repente, uma voz alterada brada pela porta da cozinha: "Crianças o que vocês estão fazendo molhados nesse quintal alagado? Entrem já! Vamos ter uma longa conversa!”. Dá para imaginar que tipo de conversa minha mãe teve conosco! Porém, como meu pai sempre dizia:
– A criança vê o azul de uma forma diferente!
E nós não víamos a chuva como um problema, e sim, como mais um motivo para brincar e continuar achando tudo lindo, além de mais uma razão para extravasar nossa alegria de ser apenas criança.
Ah! Não posso me esquecer: alguns anos depois fiquei noiva em dezembro, com chuva; casei-me no mês de janeiro, com chuva e para sempre lembrar dela (chuva), quando meus três filhos nasceram, estava chovendo.
Hoje, consciente, quando a chuva de São Paulo cai, continuo olhando para o céu, agradecida e peço que ela trague alegria e não tristeza à todas as famílias.
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