Na atual Rua Cincinato Pamponetti, no bairro da Lapa, há muitos anos, no meio do único quarteirão, existia uma padaria com o nome: Bar e Panificadora "Estrela". Na época, ela era muito requintada, com uma freguesia seleta composta por pessoas diferenciadas da região.
A rua era pavimentada com paralelepípedos, conhecidos também por “macacos”. A colocação dessas pedras era perfeita e os desenhos que elas formavam em alternadas curvas côncavas e convexas denotavam a originalidade e a arte apurada dos operários que a executavam. Os trilhos polidos pelo atrito contínuo das rodas dos bondes, assentados no meio da rua, realçavam ainda mais a feitura da bonita obra.
Ao cair da noite, a padaria iluminada com os letreiros de neon associados ao entra-e-sai da clientela, em busca dos filões e bengalas de pães da última fornada, mostravam um clima de festa, burburinho e alegria contagiante!
Toda a noite, como era de lei, Maloca e Tigrão se encontravam na calçada da panificadora e, como num ato ensaiado nos detalhes, sempre com a mesma educação esmerada, Tigrão oferecia a entrada ao estabelecimento para o Maloca que nunca agradeceu o nobre gesto do amigo. Ele não tinha o perfil para essas coisas.
Os dois sempre bem vestidos, barbeados, penteados e perfumados, após os cumprimentos habituais aos frequentadores mais conhecidos e funcionários da padaria, sentavam-se nos tamboretes da lateral interna do balcão em ferradura, para mais uma noite de conversas corriqueiras e muitos aperitivos. A posição assumida por ambos no balcão era estratégica, uma vez que conseguiam ver as pessoas que entravam no estabelecimento sem serem notados.
Os dois possuíam suas musas prediletas entre as freguesas, mas se fechavam em copas e nunca houve trocas de confidências entre eles sobre esses caprichos masculinos, apesar da amizade fidelíssima!
Maloca vivia da boa grana que recebia nos finais de semana dos bons times de futebol da várzea paulistana, por ser um excelente centroavante, apesar de canhoto, e que jamais quis se sujeitar às regras rígidas das equipes profissionais de primeira linha desse esporte, apesar dos vários convites, optando assim, pelo não compromisso responsável e, a cada jogo, vestir a camisa do clube que mais lhe pagasse pela partida. Dessa maneira, ganhava o seu dinheiro, que atendia suas necessidades sem que precisasse colocar na pendura uma pinga ou um maço de cigarros. Pelos seus comentários, demonstrava ser morador da Vila Leopoldina, subdistrito da Lapa. Nunca revelou seu endereço, nem ao Tigrão, como também não falava seu desempenho notável dentro das quatro linhas dos campos de futebol, mesmo no final da noite depois de muitos e muitos aperitivos. Era pelas bocas dos outros que o amigo tomava conhecimento dos magníficos gols marcados pelo Maloca. E, assim mesmo, ao final dos relatos, dizia ao informante:
– Eu não acredito!
Tigrão aparentava em prima face uma origem principesca, que em nada se assemelhava com sua postura de botequeiro de carteirinha. Pouco ou nada se sabia da sua pessoa, atividades e tal. Alguém, certa vez, arriscou a afirmar ser ele professor de biologia, aposentado de uma escola renomada na cidade de São Paulo. Nunca se confirmou com certeza a veracidade do fato. Nem era de interesse. Durante as conversas, deixava transparecer que era domiciliado no bairro de Santa Cecília e, igualmente ao amigo Maloca, suas despesas com as bebidas e cigarros eram pagas ao encerrar da noitada.
Maloca e Tigrão, sem exceção, todas as noites, eram os últimos a se retirarem e, na calçada em frente à padaria, já com as luzes apagadas, através de um aperto de mãos debaixo da garoa paulistana, anunciando o começar das horas caladas da madrugada, se despediam com a promessa de um novo encontro para a noite seguinte. Promessa essa raramente não cumprida!
Ao findar mais uma jornada de trabalho na padoca, estando presentes ainda os dois companheiros e um casal sentado frente à frente numa mesinha lateral ao balcão, os funcionários iniciaram a faxina rotineira do piso com água e sabão em combinação com vigorosos esfregões efetuados por um dos empregados, com um escovão de cabo com as cerdas meio gastas.
O ambiente já estava à meia-luz e a única porta aberta era a da entrada à panificadora. De subitâneo, não se sabe de onde saiu, uma enorme ratazana se acomodou ao lado do pé direito do rapaz que compunha o casal sentado na mesinha. O rapaz e sua companheira não notaram a presença da ratazana e, com espantosa presteza, Maloca saltou de seu assento e, com a sola do sapato do pé esquerdo, prensou o roedor contra o chão, imobilizando o bicho.
Esbanjando agilidade e destreza impressionantes, com o bico do calçado, levantou o roedor à meia altura, desferindo um potente chute com o peito do pé esquerdo na pobre ratazana que passou pelo ângulo superior direito da porta de entrada, indo, por obra do acaso se estatelar, no assoalho, entre dois bancos de madeira do bonde aberto que passava em frente à padaria naquele exato momento. Nem o cobrador dorminhoco e muito menos o condutor do bonde deram conta do único passageiro que transportariam até o ponto final da viagem, que estava próximo.
Os funcionários da faxina, numa só voz, quando a ratazana atravessou a porta de entrada, gritaram:
– Golaço Maloca!
O casal, os demais funcionários e o gerente da padaria não se contiveram e riram até às lágrimas, pelo ocorrido.
Tigrão, abismado e totalmente persuadido, exclamou para quem quisesse ouvir:
– Eu acredito!
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