Nos caminhos da vida, podemos encontrar surpresas que irão acrescentar muito à nossa existência. A cada livro lido, um novo mundo descoberto, uma nova viagem feita, uma nova oportunidade para reflexão sobre um tema ou sobre a própria vida!
Certo dia, em meio ao trajeto rotineiro pelas ruas do centro, resolvi mudar meu o caminho e, ao passar pela Rua Benjamin Constant, encontrei um pequeno sebo. A fim de ganhar tempo, mudei o cardápio de almoço completo com direito a suco para um salgado com refrigerante numa "esfirraria" ali perto e, assim, poder dar uma parada para conferir se havia algo interessante naquele sebo.
Sei que estamos na era dos livros digitais, ebooks, Kindle, livros por internet, mas folhear um livro numa livraria e sentir suas páginas é algo incomparável. Nos sebos, o cheiro dos livros antigos e o amarelado nas prateleiras abarrotadas me causam uma sensação de feiúra, porém, aguçam minha curiosidade e, sem perceber, sou capaz de ficar horas num desses lugares garimpando algo raro.
Após passear pelas prateleiras da pequena loja observando vários títulos, vi num canto uma pequena banca e, em meio a vários livros misturados sem qualquer tipo de organização, observei um exemplar grande com o título "A São Paulo de Ramos de Azevedo". Admiradora que sou da história da cidade, não acreditei e peguei aquele livro como se em minhas mãos houvesse um tesouro procurado há anos. O livro era uma edição especial do Departamento do Patrimônio Histórico do Município de São Paulo, editado em 1998, homenageando Francisco de Paula Ramos de Azevedo.
Na contracapa, uma dedicatória de um neto aos seus avós que residiam em Vitória. Tal dedicatória me levou a refletir sobre os caminhos que teriam levado aquele magnífico livro à pequena banca no centro da cidade; refleti sobre as emoções causadas aos que viajaram por suas grandes e ilustradas páginas ou indagações sobre como poderia tal um objeto, demonstrando na dedicatória tanta proximidade emocional, chegar àquele local para ser vendido como um livro qualquer, sem valor sentimental.
Sem pestanejar, comprei o livro e me assustou ser um valor tão pequeno diante de tal magnitude. No caminho para casa, dentro do metrô mesmo, comecei a viajar no tempo ao ler suas páginas e a observar cada foto antiga, muitas inéditas para mim, tais como a Ladeira General Carneiro (1910), Largo do Braz (1887), Rua 15 de Novembro (1910) e da construção do Monumento à Ramos de Azevedo em frente à Poli, no Campus da USP. Descobri curiosidades sobre obras tais como: o "1º. Projecto de Parque Edifícios Públicos e Arruamento da Várzea do Carmo" que foi um dos projetos de urbanização do Rio Tamanduateí (1911) e a transformação da Várzea do Carmo em Área Verde de Lazer (atual Parque Dom Pedro II), a Tesouraria da Fazenda (1886-1891) quando ele tinha 34 anos; Casa do Politécnico (Rua Afonso Pena, no Bom Retiro); Theatro Municipal; Prédio dos Correios e Telégrafos; Praça Fernando Prestes; Mercado Municipal; Palácio das Indústrias; Secretaria da Fazenda e Agricultura no Pátio do Colégio(antigo Largo do Palácio); Quartel Tobias de Aguiar, Pinacoteca do Estado; Edifício Ramos de Azevedo (atual sede do Departamento do Patrimônio Histórico de São Paulo), Hospital Juqueri e tantas outras obras que tiveram sua assinatura ou de nomes como Domiziano Rossi e Felizberto Ranzini os quais faziam parte da equipe do "Escriptorio Technico de Architectura Ramos de Azevedo". Dumond Villares posteriormente foi um de seus sócios e, mesmo que muitos dos projetos não tenham sido feitos por Ramos de Azevedo, havia um alto padrão em todas as obras provenientes do escritório.
Pude descobrir muito sobre o centro antigo e, se antes eu admirava cada detalhe do centro, depois de ler o livro pude admirá-lo de forma incontestável e hoje, ao passar por muitos dos edifícios, sei um pouco mais sobre eles e sua história, tornando-os mais interessantes para mim.
A pequena loja passou a ser parte de meu trajeto, assim como o cardápio do almoço ficou fixado em salgado com refrigerante nos dias em que passo naquele local.
Está aí uma dica para os amigos admiradores da cidade de São Paulo: sempre que possível, entrem nessas pequenas lojas, ali podemos encontrar maravilhas, petiscos literários impagáveis, porém, a preços módicos.
Àqueles avós, espero que tenham conseguido receber a mensagem e o carinho do neto e que tenham gostado do livro. Ao neto, que tenha conseguido levar alegria aos avós ao receber tão precioso exemplar que levava sentimentos e conhecimento, talvez até lembranças de um tempo vivido por eles. A vocês, amigos deste site e admiradores de São Paulo, que eu tenha conseguido levar um pouco de minha experiência ocorrida numa simples manhã nas ruas do Centro ao mudar um percurso.
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