Já que ele era baixinho… Arrisquei!

Na década de 60, havia muitos bailinhos em salões de clubes varzeanos de nossa querida capital. Casa Verde, Lapa, Bom Retiro, Barra Funda, Pompéia, Água Branca e, é claro, também na minha querida Freguesia do Ó.

Na Freguesia, um baile famoso era o do Clube Sete de Setembro F.C, sempre lotado e com a presença de lindas garotas que gostavam de baile e dançavam bem. Eu e vários amigos, apesar de não sermos grandes dançarinos, gostávamos de frequentar esses bailinhos.

Eram os anos dourados do “tcha, tcha, tcha”, do bolero e do samba canção, e já havia chegado ao pedaço o twist, o calipso, e o Rock’n’roll do Elvis.

Nunca foi de briga, pelo contrário, em toda a minha vida eu sempre preferi levar os desaforos para casa. Não, não por covardia, é que eu sou pacato por natureza, e detesto discutir ou arrumar encrencas. Acho que por ser filho de um pai já idoso, muito sábio e bem vivido, eu devo ter aprendido com ele a não se meter em encrencas.

Um dia, estava eu com alguns amigos quase que de passagem por um desses salões acima citado, quando notei a presença de um baixinho dando aquele show de dança, e chamando a atenção de todas as minas ali presentes, inclusive aquelas que sempre davam preferência para dançar com a gente.

O baixinho era um grande bailarino e dava show no salão. Determinadas músicas que não eram muito comuns, o baixinho estraçalhava, fazendo vários casais parar de dançar para assistí-lo no meio do salão.

Não sei por que razão, talvez dor de cotovelo, o baixinho começou a irritar o meu ego, e eu comecei a achar que o baixinho era mesmo um folgado, e veio ao baile apenas para se mostrar, humilhar as pessoas e paquerar as meninas.

Aos 16 anos, eu praticamente já tinha ou estava perto da altura de hoje, 1,80 m, e aquele baixinho não chegava a 1,60 m de altura; acho que foi isso que me motivou a tomar a iniciativa de encarar o baixinho. Imaginei “com esse com certeza eu posso”, e resolvi dar uma de valente, pela primeira vez em minha vida. Conversei com os amigos, todos concordaram que o baixinho era atrevido mesmo; falei da minha intenção de encarar o cara, mas alertei para que, se o baixinho partisse para a briga, que nenhum deles apartasse. Na realidade, eu estava tão confiante e me sentindo como o Maguila enfrentando o Nelson Ned; a confiança era tanta que eu ainda quase fiz os meus amigos jurarem que não iriam apartar e nem deixar a turma do deixa disso apartarem.

Confiante e decidido, esperei o intervalo da orquestra; e assim que a música parou, eu cheguei perto do baixinho e falei firme:
– Meu, você não é desse bairro não, né? Então, acho melhor você se mandar daqui, porque, senão, eu te arrebento todinho.

Pensei que o baixinho, depois da ameaça e vendo meu tamanho, iria se mandar, mas, nada! O danado resolveu encarar, e o que é pior: ele brigava melhor do que dançava. Aquele floreado que ele mostrava dançando, viraram passos de capoeira; o baixinho parecia um polvo, tinha um monte de pernas que hora estavam no chão, hora estavam no ar e todas elas vindo em minha direção. Escapei do pé direito e o esquerdo pegou na minha cara; livrava-me do esquerdo e o direito me acertava.

Era a primeira vez que eu brigava, consequentemente, a primeira vez que apanhava, e o que era pior, com a garantia de meus amigos de que eles não apartariam e que fariam de tudo para ninguém apartar.

Dentro de minha cabeça já dolorida pelas pancadas levadas, quatro tristes consolos: que o intervalo acabasse, o baile recomeça-se, a polícia chegasse ou que pelo menos o saltitante baixinho cansasse.

Enquanto isso, eu já estava quase "ganhando" a briga. Uma hora era o baixinho por cima e eu por baixo, outra hora era eu por baixo e o baixinho por cima. Eu ainda ouvia daquela platéia inútil, comentários como:
– Nossa, o baixinho está massacrando o grandão!
– Não liga não, foi o grandão que começou.

E meus "amigos" parados, assistindo minha desgraça, olhando sem fazerem nada, e ainda impedindo que outros o fizessem. E tome pancada.

Aí eu pensei: “Eu só preciso acertar uma pra valer e liquido o baixinho, e vai ser de cabeçada”. E, então, vendo o baixinho de guarda baixa, preparei a direita e dei com toda a força possível… Se pega! Ele tava ferrado. Foi aí que o baixinho ficou meio encurralado num canto; entrei nele com tudo de cabeça, acertei bem no meio… Da parede, porque o baixinho tirou o corpo fora. Apanhei feito burro velho.

Cheguei em casa moído, inchado e ainda fiquei com bronca da minha mãe quando ela inocentemente perguntou se eu tinha sido atropelado.

Mais tarde, acabei conhecendo pessoalmente esse baixinho. Ele morava em Carapicuíba, mas tinha parentes na Freguesia do Ó.

No mês passado, eu estive passeando na Freguesia e, em frente ao Frango, eu vi o baixinho.
– Oi, Tutu! Tudo bem? – disse-me ele e completou brincando – Como é? Está querendo apanhar de novo?

Então, com a memória avivada, eu me lembrei dessa surra e escrevi essa triste dolorosa história.

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