Eu, tendo nascido de uma humilde, valorosa, numerosa e boa família, passei meus doces e dourados anos de infância, adolescência e início da vida adulta, em Santo Amaro, na Rua Manuel Antonio da Luz, próximo ao Largo São Sebastião, hoje, Largo Boneville.
Cresci convivendo com as tradições santamarenses, como as romarias motorizadas e de cavaleiros, festas juninas ao lado da Igreja Matriz, onde ficava observando os meninos tentando subir no mastro de sebo, procissões, domingueiras na Represa do Guarapiranga, assistindo aos passeios de barco e competições de velas, e à noite, com mamãe e irmãos indo a Praça Floriano Peixoto, onde brincávamos de pega-pega enquanto a Banda se apresentava no Coreto. Quando mocinhas a diversão era tomar sorvete no Arnaldo, na Rua Capitão Thiago Luz, onde aproveitávamos para paquerar.
Natal era uma época divina. Não pelo presente, que era coisa rara, mas pelo sentimento de partilhar alegria, paz, união.
Não me lembro muito bem, mas acredito que no início de Novembro começava a peregrinação. O Menino Jesus ia de casa em casa. Ficava uma semana em cada. Quem controlava essa peregrinação era o Seu Benedito, um senhor morador da Rua Senador Flaquer , de muita fé, e que coordenava a procissão e o terço. Ele tinha uma deficiência física e "manquitolava".
Rezava de um jeito muito engraçado e isso fazia com que as crianças rissem muito e o deixassem nervoso. Mamãe nem sempre podia acompanhar por isso pedia para minhas irmãs mais velhas irem conosco.
Como era esperado o dia em que o santinho sairia de uma casa para outra!
Era uma festa para as crianças. Para alguns, era um desafio ajoelhar, pois a reza durava uma eternidade. Seu Benedito pedia para todos os santos, nomeando um a um, rogai por nós. E somente ele tinha uma almofadinha para os joelhos. No final da reza sempre a dona da casa oferecia algo, dentro de sua possibilidade, como café com bolo de fubá, tortas, pipoca, bolachas, pães, doces, "Q-suco", às vezes, refrigerantes.
Uma oportunidade para degustar coisas diferentes.
Tinha uma senhora muito fina, na Rua Iguatinga, que servia sempre uma verdadeira ceia para todos. Saíamos de lá saciados.
Hoje vejo que o prazer para mim, nesta época de criança, estava em rir e comer e não em rezar.
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