O abacate

Meu pai morava no Bairro de São Miguel Paulista; melhor dizendo, na Rua Diego Calado, Vila São Silvestre, Zona Leste da Cidade de São Paulo, em um enorme terreno. Tinha uma grande variedade de frutas plantadas: laranja, mexerica, limão, jaca, banana, abacate; além de criação de galinhas, patos, coelhos, cachorros, gatos; e até chegou a ter um papagaio, que viveu cerca de 30 anos, e uma tartaruga, que viveu bastante também, além de um macaco-prego, que era fêmea, que só ficava mansa quando entrava no cio, e não podia ver gente, que ela atacava!

Tinha também uma bela horta onde cultivava alface, almeirão, salsinha, coentro, cebolinha, etc. Era uma verdadeira chácara dentro da cidade, fazia inveja para todos os vizinhos.

Meu pai, que veio do campo, nunca conseguiu viver sem mexer com a terra e animais. Era assim que ele curtia sua paixão.

Dos pés de frutas, o que mais produzia era o abacate. Na época, não vencíamos de tirar os frutos e os melhores ficavam sempre nos galhos mais altos.

Numa sexta-feira santa, também conhecida por sexta-feira da Paixão, depois de almoçarmos uma bela bacalhoada, acompanhada de um bom vinho, resolvemos colher alguns abacates. Minha mãe falou “deixa para amanhã, sábado, que hoje, sexta-feira da Paixão, não é dia de fazer nada”. Falei para ela: “Embora respeite todas as religiões, isto é coisa antiga, não tem nada a ver!”.

E lá fomos nós, apanhar os abacates! Um tirava cutucando com a vara; o outro apanhava. Quando falei “vou subir na árvore para apanhar os melhores, que estão lá em cima”, minha mãe, vendo a cena, me reprovou, pois, religiosa fervorosa, tinha muito respeito por aquele dia santo. Não ligando para a opinião de minha mãe, subi na árvore. E sobe daqui, sobe dali, pega abacate, joga abacate para baixo, e na catana, vi uns maiores bem no alto, que não dava para ver por baixo. Fui subindo, apoiando-me aos galhos. Cata um, cata dois, cata três. De repente, o galho em que eu estava quebrou. Despenquei árvore abaixo, quebrando outros galhos no caminho. Estava, mais ou menos, a uma altura de 8 metros do chão.

Caí primeiro em cima de um telhado de fibro-cimento (amianto), que rompeu as telhas e, assim, cheguei ao chão. Ferrei-me todinho: um monte de cortes pelo corpo causado pela quebra dos galhos, bem como das telhas; fraturei os ossos do ombro direito; e tive uma enorme luxação nos ossos da bacia, além de um corte profundo na cabeça. A coisa só não foi mais feia, porque o telhado em que caí, embora tenha me ferido, amorteceu a queda, senão o acidente seria mais sério.

Meu irmão gritou “Ajudem! O Roberto caiu da árvore" e saíram todos de casa para me socorrer. Minha mãe dizia:
– Bem que avisei que não se deve fazer nada no dia da Sexta-feira Santa. E você não me ouviu! Bem que falei!
Minha mãe repetia essa mesma fala várias vezes, em choros e prantos.

Chamaram o resgate e fui socorrido. Colocaram gesso em meu ombro, levei vários pontos nos ferimentos, tomei um monte de injeção e fiquei de molho por mais de trinta dias, pois, com o ombro engessado e imobilizado, não podia trabalhar.

Hoje, árvore para mim só serve para apreciar. Não me atrevo a subir nem no primeiro galho!

Abacates? Claro, mas apenas comprados, porque meu pai já não tem a sua chacrinha, já que se mudou para o litoral.

E quanto à Sexta-feira Santa ou da Paixão, o que faço é comer uma boa peixada, que é tradição, e, seguindo o conselho de minha mãe, prefiro ficar sem fazer nada neste dia.

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