A nossa turma é boa. Boa, boa, boa!

“A nossa turma é boa. Boa, boa, boa!
E é da Freguesia. Ia, ia, ia!
Rá, tchim, bum. Paulista, Paulista, Paulista!”

Era assim cantando, que comemorávamos nossas idas e vindas aos campinhos de futebol daquele gostoso futebol varzeano disputados nas periferias de São Paulo, aos domingos em cima de um velho caminhão Chevrolet Tigre.

Se ganhávamos, para comemorar vínhamos no mesmo caminhão cantando alegres o resultado do jogo, ligado a um deboche aos adversários. (“eles vieram de trem de ferro para perder de três a zero!”) adversários que na maioria das vezes eram também conhecidos e moradores dos mesmos bairros (a rivalidade era só durante o jogo), no término do mesmo a amizade permanecia.

E assim na carroceria do caminhão íamos para Pirituba, Itaberaba, Brasilândia, Lapa, Moinho Velho, Piquerí, Vila Anastácio, Água Branca, Vila Pereira Barreto, Itaiaú, Vila Penteado, Cachoeirinha, Limão, Vila Palmeiras, Casa Verde, e às vezes até a Pinheiros (o que na época antes das marginais Tietê e Pinheiros era uma aventura muito louca).

Eu e meus companheiros alguns ótimos jogadores e craques de bola Como o Raimundo, o Décio Mosquito, o Tonéca, Wilson Galão, o Hildo Bertucci, o Zelito Simões, o Pedrinho Faragello, o Darcy Simões, o Alfredo Siqueira (filho do velho Elízio Profissional do São Paulo F C em 1948 a 1950). Essa era nossa turma do C.A. Paulista.

Havia também grandes jogadores em outros times da Região como o XXV de Agosto, o Sete de Setembro, o Az de Ouro, o Botafogo, o Clipper, o Corintiana da Vila Palmeiras, e os famosos Times da Cifa e do Cruzeiro.

Havia competição e campeonatos, a Várzea era um celeiro de grandes jogadores, mas pelo menos lá da Freguesia não saíram muitos craques não. A maioria jogava bem, mas apenas por gostar de uma pelada domingueira, muitos viraram engenheiros, artistas, advogados, e acredito que a maioria tornou-se empresários, contadores e funcionários públicos.

Na época era muito difícil estudar na Freguesia do Ó, só havia o Grupo Escolar com o primário até o 4ª ano de ensino gratuito, e só a partir de 1952 é que era possível fazer o ginásio sem precisar sair do bairro, e assim mesmo em uma escola particular (Gitema) onde só podia estudar pagando a mensalidade. E isso, é claro, era algo vetado aos menos favorecidos.

Hoje em dia ao caminhar por São Paulo passando por grandes avenidas e viadutos imensos, me vem na lembrança tudo aquilo sem asfalto, e no lugar do cimento armado, velhas pontes de madeira. Caminho por aqueles lugares onde outrora eu andei em terra e em barro quando chovia. Me dá uma tremenda saudade da minha antiga Freguesia, onde outrora todos se falavam e todos se conheciam.

E então penso que ouço bem longe naquele caminhãozinho os meus amigos bem jovens e todos cantando com todo entusiasmo do mundo:

“A nossa turma é boa. Boa, boa, boa!
E é da Freguesia. Ia ia ia!
Rá, tchim, bum! Paulista, paulista, paulista!”

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