Para mim começou em 1950, quando da eleição para presidente da republica em 1950. O Brasil tinha acabado de perder a copa do mundo aqui mesmo no maracanã, e seria uma página virada logo em seguida devido a segunda vez que o povo ia as urnas depois que Getulio Vargas tinha sido deposto como presidente ditador. Era uma coisa diferente para quem tinha a minha idade, pois a eleição anterior tinha sido quatro anos antes em 1946, ai eu com sete anos de nada me lembrava. Mas em 1950 eu já com onze anos filho de gente politizada, Getulistas roxos estava atento ao que diziam meus pais e os vizinhos. Meu Pai Ângelo, minha mãe Orlinda, dona Laura e seu marido Antonio, e dona Elvira, os mais próximos de casa, tinham seria discussões com seu Alfredo Cunha e dona Palmira, ambos professores do grupo escolar Aristides de Castro, no Itaim Bibi. Eram eles adeptos da UDN e, portanto, a favor do Brigadeiro Eduardo Gomes, um guapo (homem bonito) segundo as mulheres, e também um solteirão, o que dava grandes suspiros as moças casadoiras. A briga entre PTB de Getulio e o Brigadeiro pela UDN, era coisa de rixa entre Palmeirenses e Corinthianos. A propaganda eleitoral era na base de altos falantes que os carros circulavam com aqueles grandes bocais em som muito alto. Lembro-me direitinho da propaganda do PTB. "Presidente Getulio, Adhemar senador, e Lucas Garces, pra governador é PTB é PSP, os dois estando juntos nós vamos vencer." O comitê do PTB, era bem perto da minha casa na rua da Ponte (Clodomiro Amazonas) eu que morava na rua do Porto (Leopoldo Couto de Magalhães Junior) ia todos os dias para pegar panfletos, já aproveitava para ir ao chalé da rua Joaquim Floriano pegar o resultado do jogo do bicho para meu pai. Era uma tremenda barulheira que fazia aquele alto falante no bico do telhado de duas águas que tinha na casa do comitê. Tudo estava bem para meu lado, que colava vários nomes de candidatos numa casinha de madeira imitando um comitê, e ficava que nem um palhaço, gritando nomes de políticos. Mas quando o Tonélli, responsável pelo comitê, foi em casa, é que o caldo engrossou para meu lado. Uma bela noite que meu pai pensava que ia estar sossegado escutando música italiana na radio Gazeta (Mensagem Musical de lá Itália, com Antonella e Gian Paolo). Lá vem o Tonelli, encher o saco.
– Hei Carcamano, tem ai um Biquere de vinho, ai pra mim?
Era o que mais tinha em casa. E como meu pai gostava de repartir seu vinho com os amigos. Tonelli, não foi para tomar vinho. Foi pedir uma coisa muito importante para a campanha de Getulio. Eu só fiquei sabendo depois que o cara deu uma mordida naquele pão italiano com sardela, e fazer careta com o ardido da coisa.
– Seu Ângelo, seu filho Mário, pode entregar cédulas em frente da escola no dia das Eleições?
– Claro que pode Tonelli. Afinal o moleque vai distribuir as cédulas da nossa vitória, e mãos no copo!
No dia 3 de outubro, lá estava eu em frente ao grupo escolar Aristides de Castro gritando feito um louco varrido. Olha a chapa do Getulio. Olha a chapa do Getulio. A chapa consistia em ter cédulas do Getulio Vargas (presidente) Café Filho (vice) Lucas Nogueira Garces (governador) Erlindo Salzano (vice) deputados estaduais, federais e senador. Já por perto das 17 horas, terminando a votação, chego pra um senhor alto careca encostado na porta da Casa Paes, e mando o recado.
– Meu senhor, estou te oferecendo a chapa do Getulio!
Ele com um sorriso bastante irônico foi logo dizendo:
Meu filho, para que vou querer a chapa do Getulio, se tenho a minha, tirando sua dentadura da boca. Naquele tempo chapa, era sinônimo de dentadura.
Foi meu primeiro trabalho cívico da minha vida