Foi o ano em que consegui comprar o meu tão desejado violão. Com minha quinzena em mãos, a segunda, porque com minha primeira fui a Ladeira Gal Carneiro e levei para casa uma dúzia de pratos desenhados a ouro, da loja Almeida Land. Até então para as grandes ocasiões usávamos o aparelho de jantar de porcelana inglesa, cujos pratos rasos eram tão rasos e os fundos tão fundos que com certeza poderíamos fazer navegar uma lanchinha toc-toc com chumaço de algodão, álcool e fogo. Como detestava sopa de legumes e minha mãe nos obrigava tomar, quanto menor o prato seria melhor. Não era menor, só era normal.<br><br>Então, com minha segunda quinzena, recebida da Indústria de Pneumáticos Firestone, fui a Casa Manon da Rua São Bento e comprei o violão para quitar em cinco vezes, ou meses. Orgulhosa de tamanha credibilidade, isto que conferia o carnê, fui imediatamente procurar uma professora de violão. Primeiro tive dificuldade em posicionar corretamente os dedos, depois as cordas os tornaram sensíveis, doíam nas pontas, mas persisti. Ocorre que a professora mudou de bairro e em vão procurei alguém que me ensinasse aos sábados.<br><br>Casei-me, tive filhos e no andar térreo do prédio de minha mãe, veio morar Lydia, uma virtuosa que se dispôs a me ensinar. Na época Nico Fidenco, Pepino de Capri, etc faziam sucesso, então eu cantava "Roberta perdona mi, ritorna…" e os meus filhos choravam no andar de cima. Naquela época eles não sabiam quão mal eu cantava, era mesmo por ouvirem a minha voz. <br><br>Parei, mas continuei a acalentar o sonho de aprender acompanhamento. Tinha ciúmes e não deixava meus filhos brincarem com meu violão. Vieram os netos, e nem perguntaram se poderiam mexer, simplesmente o levaram. Formariam uma banda. Pensei finalmente meu DiGiorgio terá mãos dignas para tocá-lo. Feliz por dá-lo aos meus netos, perguntei para um deles se já estavam tocando, e me respondeu que o outro caiu em cima, quebrou e o pai jogou fora. A minha jóia, o meu violão já não existe mais.<br><br>E-mail: [email protected]