Paro num sinal fechado da movimentada Avenida 9 de julho, quase em frente ao Colégio do Sagrado Coração de Maria. Olho mecanicamente para o lado e o que vejo da janela do meu carro aguça rapidamente meus sentidos. À primeira vista, a cena que vislumbro não sairia de nenhum conto de fadas, embora não faltasse magia para isso!<br><br>São 6 horas da tarde. Uma mulher e uma criança maltrapilhas estão sentadas bem ali, quase ao meu lado, na grama amarelecida e rala do canteiro central da ilha daquela avenida. Estão rodeadas de pequenas sacolas de plástico, de arbustos avermelhados pelo outono e de infinitas folhas soltas e secas que dançam à sua volta, ao ritmo do vento que sopra.<br><br>O brilho dos últimos raios de sol refletidos pelos vidros dos carros e dos arranha-céus que as margeiam revestem de dourado suas vestimentas, dando toques da mesma cor ao espaço que as circundam. E, como num oásis de paz e plenitude, alheia aos carros, faróis e buzinas, alheia do mundo e de todos, a mulher vai dedilhando suavemente o cabelo da criança esparramada em seu colo, como tecendo acordes em forma de delicadas trancinhas, num momento mágico de ternura. Demonstrando ausência total da miséria que as revestem, mais parecem figuras fugidias de uma pintura surrealista.<br><br>Para mim, naquele instante, nada poderia ser mais bonito do que a aura de amor que as envolvia. Havia nelas um brilho próprio que resplandecia e uma força sem limite que as tornavam quase irreais. Aquelas duas mulheres vivendo um momento eterno, mãe e filha.<br><br>Dois minutos para o sinal abrir. Eu não tinha mais do que isso para observar o que eu sentia ser fora de tempo e de lugar.<br><br>Com avidez, procuro absorver cada gesto e cada cor, na vontade mais que profunda de perpetuar aquela cena dentro de mim e colocá-la na memória das visões mais lindas já vistas!<br><br>“Meu Deus, se eu estivesse com uma máquina fotográfica…”, chego a pensar. “Não! Que bobagem! Imaginar que uma máquina fria pudesse registrar o calor daquele momento?!”. Continuo forçando os olhos sobre a cena, sentindo-me pequena e invejosa da sua magnitude.<br><br>O sinal se abre. Os carros começam a andar. Contra a vontade, tenho que seguir em frente.<br><br>Vou embora levando comigo aquele presente que Deus acabara de me dar: a certeza de que, mesmo nas maiores incertezas da vida, sempre haverá a possibilidade de sermos plenos e felizes se formos capazes de nos alimentar, simplesmente, de amor incondicional e de paz.<br><br>E-mail: [email protected]