Na cidade São Paulo há uma junção de migrantes e imigrantes interessante, são diferentes origens e culturas que se misturam harmonicamente fazendo a cidade ter características únicas.<br><br>Quando meus pais vieram do interior, no final da década de 60, além dos filhos, trouxeram muitos sonhos e esperanças de um futuro melhor. A cidade era sinônimo de progresso e oportunidades, e meus pais traziam dentro de si a esperança, mesma esperança que move tantas pessoas a virem tentar a sorte em São Paulo. Alguns são bem sucedidos, outros não.<br><br>Em meados 1972, quando chegamos à Zona Norte, mudamos para a Avenida Ataliba Leonel, quase esquina com a Rua Paulo Avellar. Era uma pequena e aconchegante casa no final de um longo e estreito corredor, rodeada por vizinhos tipicamente paulistanos, dos quais me lembro perfeitamente do Senhor João e Dona Tereza, italianos vindos para o Brasil na década de 40. Lembro também de um casal de jovens paraibanos, de advogados piracicabanos com uma enorme família, de japoneses discretos e recatados de portugueses e, na esquina, uma horta que, para meus olhos de nove anos, era imensa. <br><br>A convivência era harmônica, quebrada de vez em quando pelas brigas entre o Senhor João e Dona Tereza que xingavam em italiano. Havia a troca de pratos típicos por cima dos muros, as pequenas lembranças no Natal e as longas conversas nos finais de semana, quando meu pai voltava da banca com o jornal de domingo, ou quando voltávamos a pé da missa da manhã na igreja do Padre Júlio. <br><br>Dona Tereza sempre presenteava as vizinhas com seu lindo crochê, ou então doces típicos de sua terra natal e posteriormente a retribuição por parte das vizinhas. E assim passavam-se os anos. <br><br>Os sorrisos eram sempre estampados nos "bons dias" de diferentes sotaques daqueles rostos que traziam consigo tantas histórias de vida e de esperança de um futuro melhor.<br><br>Apesar do trânsito intenso da Avenida Ataliba Leonel, uma das poucas rotas para a região do Jaçanã, o local até que era tranqüilo.<br><br>A horta que ficava na esquina da Avenida Ataliba Leonel com a Rua Paulo Avellar pertencia a um espanhol aposentado chamado Senhor Antônio. Ali eram vendidas as mais variadas verduras a preços irrisórios. Acredito que fosse um hobby para ele.<br><br>Atraídos pelo baixo preço e pela qualidade, habitantes de região vinham comprar verduras, nós fazíamos as compras por cima do muro mesmo, e lembro-me ainda de sempre levarmos café e bolo para o Senhor Antônio, que agradecido tirava o chapéu de palha, jogando-o no chão e limpava as mãos na lateral da calça antes de pegar o café e o bolo.<br><br>No terreno onde havia a horta, existia uma mina que era utilizada por ele para molhar as plantas. Talvez este fosse o segredo das verduras serem tão saborosas.<br><br>Naquela época não existia ainda o reservatório da Cantareira, sendo constante a falta de água na região, trazendo muitos transtornos, pois era comum ficarmos vários dias sem água.<br><br>O Senhor Antônio, com sua bondade, oferecia água de sua mina para todos os vizinhos e para quem mais precisasse. Eram baldes e mais baldes sendo levados às casas e percebia-se a alegria dele em poder ajudar aquelas famílias.<br><br>Com o passar dos anos e devido ao peso que a idade proporciona, o Senhor Antônio acabou vendendo o terreno. No local fora construído um prédio que abrigaria um banco (hoje isto seria crime ambiental) e, aos poucos, os vizinhos foram se mudando, inclusive nós. Alguns faleceram, outros foram para outros bairros ou voltaram para sua origem. Rostos que se perderam no tempo e em outros rumos, porém, ainda vivem em nossa memória.<br><br>Daquelas casas, somente uma ainda permanece, pois as demais foram demolidas, inclusive a nossa. Daquele pequeno espaço da Avenida Ataliba Leonel ficaram muitas lembranças e lições de vida.<br><br>Até hoje, nas reuniões de família lembramos com saudades de algum fato ou de pessoas daquela época. <br><br>Diferenças culturais podem conviver harmonicamente, a generosidade sem esperar nada em troca, a alegria de viver e conviver, a imagem das conversas e dos sorrisos. Tudo isso e muito mais mostram o lado humano de São Paulo, tanto na década de 70 e ainda hoje, mostrando e que vale a pena viver em São Paulo!<br><br>E-mail: [email protected]