O gato

Foi por volta de 38 ou 39 quando pela primeira vez, que me lembre, vim à Vila Maria. Era certamente um domingo. O intenso calor e a várzea alagada até as proximidades dos trilhos da Light indicavam que era verão, janeiro ou fevereiro. Morávamos então no Brás e a família veio a passeio visitar meus padrinhos que moravam no morro, na Rua Horácio de Castilho. <br><br>O velho bondinho veio "a oito", Rua Catumbí abaixo, com seu impertinente barulho de ferragens. Um pouco adiante atravessamos a velha ponte de madeira sobre o Tietê e o barulhento, mas charmoso, veículo ingressou e prosseguiu impávido pela Avenida Gilherme Cotching. Ao passarmos pela rua do "Pito Acesso" (Rua António Fonseca), divisei adiante e à esquerda da avenida, na esquina da Rua Alcântara, sobre uma casinha de cor verde, parado sobre a cumeeira, um gato preto, que dali vigiava a avenida. O gato não se mexia. Estático, parecia hipnotizado pelo meu olhar curioso. O bonde, que parara por instantes no ponto, seguiu seu curso, espantando pelo caminho os cães vadios e cabras desgarradas.<br><br>O gato ficou para trás, mas permaneceu nos meus pensamentos. Descemos no ponto final do bonde, na Praça Santo Eduardo, de onde seguimos a pé. No fim da avenida e à sua direita, num terraço elevado, ao lado da Rua Araritaguaba (Praça N. S. da Candelária), encaixada no morro, lá estava a velha igreja. A igreja, sem torres, muito me chamou atenção. Julgava (eu era ainda criança), que igrejas deveriam necessariamente, ter torres. Essa não as tinha. Que estranho! Mas, do lado de fora, pendurado numa trave, tinha um sino. O que já era alguma coisa.<br><br>Subimos a Rua Simão Borges (hoje Mére Amédea) e por um atalho chegamos ao nosso destino. Da casa, debruçada sobre o morro, tinha-se uma extraordinária visão. Nos quarteirões do bairro, na várzea lá embaixo, transformados em verdadeiros arquipélagos, emergiam umas poucas casas, ilhadas pela enchente. À nossa direita divisavam-se as lagoas de Vila Guilherme, cercadas por extensos bambuzais e, mais ao longe, qual uma fortaleza medieval, cercada por uma longa muralha, despontava imponente a Penitenciária do Estado, o Carandirú. À nossa esquerda, o Tatuapé e a Moóca e lá longe via-se o Paraíso, que podia ser identificado pelo prédio da Brahma e pela cúpula da Igreja Católica Ortodoxa. Vistos claramente do nosso privilegiado observatório, à nossa frente, no centro, despontava um grande arranha-céu cor-de-rosa, o mais alto da cidade, o edifício Martinelli. Hoje sei por que, no século 19, deram o nome de Bela Vista ao sítio que daria origem ao bairro.<br> <br>Brinquei boa parte do dia com o cão da casa, que se chamava Batuta, um vira-lata branco e preto. Mas o gato não me saia da cabeça. Na volta procurei ficar numa posição estratégica para vê-lo, caso lá ainda estivesse. Não deu outra. Lá estava ele sobre o telhado da casinha verde. Exatamente na mesma posição, apoiado nas patas traseiras, com o dorso arqueado formando acentuada corcova e as patas dianteiras, mais elevadas, apoiadas sobre a cumeeira, pose, diga-se, muito apropriada para um felino que se preze. Sua imobilidade levou-me a supor que ele não era vivo. Não, não era! Mas era real. Provavelmente moldado em cimento.<br><br>A antiga casinha verde não mais existe, mas o gato existe ainda. Descorou com o tempo, agora está cinzento. Sobreviveu às inúmeras reformas porque passou aquela propriedade e hoje lá está ele, sobre o telhado do sobrado da esquina da Rua Alcântara com a avenida, em frente à farmácia da Sociedade Beneficente Nossa Senhora do Rosário (SBNSR). De sua privilegiada posição tem testemunhado décadas da história do bairro. Assistiu, impassível, aos atolamentos de veículos na avenida lamacenta até os anos 60. Viu, durante as enchentes, desembarcarem os trabalhadores anônimos que, das travessas próximas, chegavam de barco até a avenida para tomarem o bonde. Testemunhou, durante a guerra, o trânsito de caminhões, ônibus e automóveis movidos a gás, com o enorme e incômodo cilindro de gasogênio adaptado às suas traseiras. Foi o observador mudo de desfiles carnavalescos multicoloridos, de procissões e concentrações políticas. Atalaia do bairro, o gato viu multiplicar-se assustadoramente a população que, a seus pés, transitava nos bondes, "poeirinhas" e paus-de-arara superlotados. Participou das animadíssimas quermesses da SBNSR, muitas vezes animadas pelos dobrados e marchas executados pela banda da Light. Estava um pouco longe para ser atingido, mas devia ficar apavorado com o tiroteio que todos os domingos se travava no velho Cine Vila Maria. Eram os mocinhos Tom Mix, Buck Jones, Bill EIliot, Tim Mac Coy, Charles Starret e outros contra legiões de bandidos, que no capítulo final do seriado acabavam por vencer e colocar na cadeia. Mas isso só acontecia no final, depois de terem escapado ilesos de inúmeras armadilhas e salvado a mocinha um cem número de vezes, em vinte e tantos capítulos.<br><br>Esperamos que esse gato de pedra, recentemente pintado de branco, permaneça no seu posto de sentinela do bairro por muitas décadas ainda, continuando a despertar recordações de um tempo que, se bom ou mau, não volta mais.<br><br>E-mail: [email protected]