O menino

O dia tinha tudo para ser um daqueles dias miseráveis. Um dia frio, cinzento, garoava forte e para arrematar, o rádio do carro anunciava greve dos ônibus. Pensei nos meus garotos sem condução para voltar da escola. Teria que pegá-los na saída. A este pensamento, a enxaqueca, oportunista como ela só, começou a dar suas latejadas avisando que vinha para complicar o quadro.<br><br>- Era só o que faltava. – pensei com meus botões – Sexta-feira. Folga do guarda.<br><br>Agora precisava descer. Ir até a secretaria buscar a chave e abrir o portão de entrada dos carros.<br><br>Olhei ao redor. Era tão cedinho. Não adiantava chamar ninguém, porque as serventes deveriam estar, seguramente, varrendo as salas de aula do segundo andar e não ouviriam.<br><br>Comecei a abrir a porta para descer quando vi o menino encostado no portão de entrada dos alunos, alguns metros adiante. Tentei chamá-lo, não me ouviu. Fiz pequenos sinais, não percebeu. Parecia que tinha criado raízes naquele lugar. Isso mesmo, raízes.<br><br>Há quanto tempo estaria o menino ali, naquele portão? Menino feio e cinzento como este dia. Estaria ali desde que aqui cheguei, tão cheia de planos e de sonhos? Tantas ilusões que o dia-a-dia foi desfazendo, mostrando com crueldade o outro lado da vida, árido. Ou seria desde antes de minha chegada nesta longínqua periferia?<br><br>Acho que nunca saberia dizer. O menino sempre esteve ali, parado daquele jeito, magro, feio, cinzento. Dono único e tão somente da pequena mala que, invariavelmente, aperta junto ao corpo.<br><br>Mala preta, esquálida, com a alça prestes a arrebentar. Velha e descascada. Não sei o porquê, mas sempre que lembro do menino, esteja onde estiver, vejo sempre em primeiro lugar a sua mala. Para falar a verdade, além dela, nunca mais vi nada em suas mãos. Foram muitas às vezes, durante as aulas, que fiquei olhando-o o menino abrindo a mala e tirar lá de dentro os tocos de lápis apontados à faca, o caderno orelhudo e ensebado, o livro desconjuntado, com a capa rasgada. E eu ficava olhando, vendo como faria a lição bonitinha, caprichosa, colorida, que a gente iria valorizar com conceitos pré-estabelecidos, em pomposas e solenes avaliações.<br><br>E, estes tocos velhos, cuja cor a vida tratou de esmaecer, pintariam flores e borboletas desbotadas. E o papel, vagabundo de origem, aproveitaria para abrir-se todo, soltando flores e borboletas desbotadas que sairiam voando pelo céu cinzento, se soltando assim como velhos sonhos desbotados que o coração resolvesse soltar de dentro da gente. E o céu ficaria cinza-chumbo, pesado…<br><br>Sacudi os pensamentos, desci do carro, passei pelo menino e senti vontade de afagar aquela cabecinha molhada de garoa, mas não o fiz, e o gesto se perdeu no ar.<br><br>Toquei a manhã e sai para meu bairro, aflita em pegar meus garotos que estavam sem condução. Curiosamente, a garoa foi cedendo lugar a um sol forte. A cidade estava caótica e o trânsito infernal. As ruas apinhadas de carros buzinando, fechando cruzamentos. Fui mandada lavar pratos pelos mais apressadinhos, e mandando saudações às queridas mãezinhas dos citados cidadãos, acabei estacionando sã e salva.<br><br>Pairavam no ar perfumes variados de mães que, como eu, foram buscar seus rebentos. Enquanto esperava, tentei adivinhar:<br>- Christian Dior? Paco Rabanne? Fleur de Rocaille? Ou simplesmente Gelatti (caso a crise já tenha chegado até aqui).<br><br>Decidi não pensar em perfumes no momento. Perfumes lembravam casamentos em igrejas apinhadas, com mulheres muito pintadas e enfeitadas, homens engravatados e crianças entediadas.<br><br>Com um megafone, o funcionário da escola ia despejando garotos. E mãos perfumadas os aparavam, soltando mochilas emborrachadas, fortemente coloridas, aliviando o peso do farto material escolar que carregavam. De repente, ao meu lado começou a se formar um grupinho. Chamavam-se uns aos outros:<br>- Rápido!… Vamos aproveitar e lanchar no Mc Donald’s.<br><br>- Mc Donald’s… – repeti baixinho – Qualidade lá em cima, preços lá embaixo. (Seria assim esta propaganda que a televisão impingia diariamente?).<br><br>Não sei se foi a frase, o ar excessivamente perfumado, a enxaqueca, mas comecei a sentir-me enjoada. Comecei a me sentir uma estranha, naquele estranho mundo. A figura do menino, naquela periferia tão distante, grudado naquele portão, segurando aquela mala velha e feia dançava em minha mente, e então eu percebi que a pergunta que sempre me fizera estava respondida.<br><br>Nestes anos todos, sempre me perguntei a partir de que momento eles se perdem e a resposta explodiu clara. Eles começam a se perder a partir do momento em que seguram uma velha e descascada mala, com tocos de lápis apontados à faca, um caderno ensebado e orelhudo, um livro sem capa, num portão cinzento, numa manhã fria e garoenta. E a gente passando por eles, sem os ver, durante dias, meses anos. Fazer o que?<br><br>- Tocar um tango argentino, diria Manuel Bandeira.<br><br>E-mail: [email protected]