Hoje estou com 54 anos e, apesar de ter nascido em São Paulo, no bairro da Vila Mariana, passei meus primeiros cinco no Paraná, nas cidades de Apucarana e Ivaiporã. Esta última era uma cidade que, na época, não tinha calçamento nas ruas, nem água encanada e energia elétrica.
Lembro até hoje da viagem para São Paulo, os campos verdes, a capital que nunca chegava… Devo ter enchido muito meu pai durante a viagem.
Quando chegamos, em 1961, fomos morar na Rua João Ramalho, em Perdizes, na época, uma rua de paralelepípedos desenhados, na forma de ondas. Nunca mais vi esse tipo de calçamento em outras ruas da cidade.
Morava quase na esquina da Rua Dr. Franco da Rocha, e todas as tardes eu e os amigos que conhecia na rua brincávamos de jogar bola na calçada; a distância entre um poste e outro era o "campo de futebol" e os próprios postes simbolizavam os gols.
Havia na rua uma equipe dos meninos mais velhos, já adolescentes; um time de futebol de várzea, o “Estrela de Perdizes”; e, aos domingos, normalmente tinha jogo num campo que ficava às margens do córrego Sumaré, junto à Rua Wanderley. Esse córrego hoje é canalizado e fica onde, atualmente, passa a Avenida Sumaré (e a avenida tem o seu canteiro central em cima dele).
Todas as tardes, quando chegava da escola, eu pegava a minha cadela, uma Setter Irlandes, e ia passear com ela junto do “riozinho”, que era como chamávamos o córrego. O “riozinho” tinha uma água escura e um cheiro de ovo que era insuportável, mas também era um pedaço da mata atlântica em pleno centro da cidade. Lembro que uma das diversões da criançada era ir "caçar" girinos nas pequenas lagoas do córrego.
Não sou saudosista, mas era um tempo que hoje realmente não se vê mais. As crianças brincavam na rua! Na maioria das brincadeiras se misturavam meninos e meninas, como pular corda, barra manteiga, queimada, passa anel, entre outras. Algumas brincadeiras eram somente para meninos, como jogar bola. Mas andar de carrinho de rolimã, as meninas adoravam!
Fiz o primeiro e segundo ano do primeiro grau na época primária Colégio Santa Rosa de Lima, que fica na Rua Apiacás. Já o terceiro e quarto ano, fiz no Colégio Santa Marcelina, que era um internato feminino, mas tinha, na parte da manhã, a escola de meninos que se chamava Santo Ambrósio, se não me engano. Minha primeira comunhão foi na Igreja de São Geraldo no Largo Padre Péricles, mais conhecido na época como Largo das Perdizes.
O ginásio fiz no Colégio Professora Zuleika de Barros Martins Ferreira, na Avenida Pompéia, na esquina da Rua Padre Chico. E havia um bar na esquina desta rua com a Cotoxó, que chamava-se O Dolar Furado, em homenagem ao filme do mesmo nome. Depois esse bar fechou e mais ou menos um ano depois, foi comprado por um senhor, que todos chamavam de "tio" e o nome foi mudado para Purple Dog Lanches. Fiz uma amizade muito grande com ele e sua família e, apesar dele não estar mais aqui conosco, guardo boas recordações de todos dentre as minhas lembranças.
Tínhamos uma banda, que na época dizíamos “conjunto”. O nome do conjunto era Alcatraz. Não esqueço do dia que acabou, fomos convidados para o festival de MPB do Mackenzie, mas, também fomos vaiados do começo ao fim da apresentação, o que acabou com o conjunto.
Fiz o colegial no Colégio das Nações, um supletivo à noite que terminei no ano de 1977, escola da qual também guardo boas lembranças, dela e dos amigos, que por sinal, muitos vieram do Zuleika; e por um motivo ou outro, acabamos todos lá no Nações. Na época, foi um susto, pois foi um enxame de alunos que de repente foi para o Nações, algo em torno de 80 ou 100 alunos. Posso dizer que, depois de mais de 20 anos, encontrei com o antigo inspetor de alunos do Zuleika e ele disse que aquela escola nunca mais foi a mesma depois de nossa saída.
Mas tem uma coisa que me intriga até hoje. Lembro que nas décadas de 60 e 70, na subida da Rua João Ramalho em direção ao centro, logo na primeira quadra antes da Rua Caetés, vez por outra estourava a adutora de água que passava ali… E, qual não foi a minha surpresa quando no começo do ano, voltando para casa do trabalho com o fretado do banco que passa pela Avenida Sumaré, ao olhar para a rua onde morei, estavam lá trabalhadores da Sabesp, concertando essa mesma adutora que havia estourado?! É, tem coisas que mesmo o tempo não consegue apagar.
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