Cine Paissandu

E ainda parece que foi ontem!

Eu e minha namoradinha, parados, diante da escadaria monumental que dava acesso a Sala de Projeção do vetusto cinema que emprestava do Largo o próprio nome: Paissandu.

Parece que foi há pouco tempo!

A fila se estendia já até quase a esquina e todos se alvoroçavam na expectativa do inicio do grande filme, que vinha sendo comentado por todos: “Romeu e Julieta”, do cineasta italiano Franco Zefirelli.

Alguns amigos diziam que o autor, o mito inglês Shakespeare, deu o nome a peça de Os Amantes de Verona, pois originariamente era uma peça de teatro. Mas, naquele tempo de sua exibição, em nosso país preferiu-se o título de “Romeu e Julieta”. Era deselegante usar o termo “amante” para discutir sobre os protagonistas, já que a palavra amante, desde aquela época, tinha conotações ocultas.

Essa ida ao cinema, numa ocasião tão especial, parecia que nos transformava subitamente em adultos, pois, naquele tempo, adolescentes pouco ou nunca iam a um cinema importante como aquele, o Cine Paissandu, no centro de S.Paulo.

O filme nos fez sonhar com carinhos mais profundos e nos olhávamos com timidez e vergonha a cada beijo que Romeu dava em Julieta e que nós nem de longe ainda tínhamos dado.

Ao sairmos do cinema pelos corredores escuros, pisando num denso tapete de veludo, ganhamos o largo, e a claridade ofuscante nos deu a impressão duma nova realidade tão diversa daquela vivida na sala de projeção.

Passados quase 40 anos, o velho cinema, hoje vazio e silencioso, ainda impressiona com seu pórtico monumental agora tomado por tapumes.

Detive-me um dia em frente à velha bilheteria e foi possível ver lá dentro todo tipo de entulho a ocupar seus espaços onde outrora uma senhora elegante com olhar sisudo nos vendia os bilhetes para entrada.

A rua ao lado do cinema, sem saída, agora serve de abrigo para moradores sem teto que olham com hostilidade quem passa apressado por ali.

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