A minha história não é diferente de muitas outras, mas não é a mais comum.<br><br>Sou portuguesa, nasci e vivi a minha vida inteira numa cidade do lado de Lisboa, capital de Portugal, e sempre fui uma menina feliz e satisfeita com o mundo.<br><br>Surgiu-me a hipótese de fazer um intercâmbio de um ano na USP, em São Paulo. No início, a ideia de morar tão longe foi assustadora. Por pouco não desisti. Depois de muitas cogitações, de muita motivação da parte da minha família, tomei a decisão e rumei a São Paulo. Não foi fácil. Todos os dias eu dizia para mim mesma: “é só um ano”. “É só um ano longe da tua família, é só um ano longe dos teus amigos, é só um ano longe da tua cidade. É só um ano…”. <br><br>Lisboa, a minha cidade, é linda, limpa e cheirosa, lá vivem apenas dois milhões de pessoas, é uma cidade calma e pacifica. A mudança para uma metrópole como São Paulo foi demais para os meus sentidos. Deixei-me levar por uma doença misteriosa e agonizante. Fiquei um mês nessa gastura, sempre olhando de lado para as pessoas, para a comida, para tudo com que me cruzava. Peço perdão desde já aos Paulistanos que estão a ler este texto. A minha gastura vinha de um eu que não existe mais e que se assustou com a dimensão magistral dessa cidade linda.<br><br>Os meses se passaram e eu deixei a doença imaginária para trás. E com ela deixei para trás muito mais… Provavelmente minha antiga eu ficou para trás e reconstruí-me, passeando na Paulista, observando as obras de arte no MASP às terças feiras, passeando no Ibirapuera no domingo, subindo no Banespão para contemplar a paisagem avassaladora que de lá se avista.<br><br>Estudei muito, aprendi mais ainda, mas, acima de tudo, passei o máximo de tempo que pude visitando a cidade. Morei em Pirituba e todos os dias eu atravessava a cidade para estudar. Pelo caminho, ia parando, apreciando: a estação da Luz, linda e resplandecente pela manhã; a Paulista, movimentada e efervescente…<br><br>A cidade que, por momentos eu não me identificava, começou a fazer parte de mim, e comecei a sentir-me parte dela. Não posso descrever por palavras ou por gestos a diferença entre o que senti naquele dia de agosto frio e cinzento em que cheguei ao aeroporto de Guarulhos e vi São Paulo pela primeira vez, e o que senti noutro dia de agosto quente e ensolarado em que, debulhada em lágrimas, cheguei ao aeroporto de Guarulhos, partindo para Lisboa, e me despedi de todos os meus amigos que tanto aprendi a amar, e da cidade que passei a chamar de minha: a cidade de São Paulo. <br><br>São Paulo muda-nos por dentro e por fora. Sou testemunha disso, e espero muito em breve voltar de vez para a cidade que tanto aprendi a amar. Se durante meses o meu único descanso era dizer a mim mesma que era só um ano, nos últimos meses essa expressão foi substituida por: um ano… SÓ? SÓ um ano em São Paulo?! <br><br>Amo São Paulo. <br><br>E-mail: [email protected]<br>