Oficinas de antigamente

Gosto muito de automóveis e de falar sobre eles. Das tradicionais marcas e suas histórias de fundação, seus fundadores, os modelos que as fábricas e montadoras desenvolveram, algumas até mais do que centenárias; marcas famosas como a Ford, Chevrolet, Volkswagen, Fiat, enfim, nacionais ou estrangeiras. Desde a segunda metade do século passado, e isso, após a II Grande Guerra, o automóvel ia deixando, aos poucos, a posição de bem material para se tornar um bem de consumo, necessário para tantos quantos pudessem adquiri-lo. Já naquela época, era difícil ao cidadão comum adquirir um modelo “zero quilômetro”, pois o valor era muito alto, sendo que alguns modelos ainda eram importados dos Estados Unidos ou Europa e a opção seria adquirir um modelo usado e com quilometragem bem avançada. Eram épocas muito difíceis, principalmente pelo episódio da II Guerra Mundial, quando a economia mundial estava muito abalada com os custos bélicos e a manutenção dos combatentes.

Contudo, as pessoas exerciam um esforço maior e, com as parcas economias que alguns conseguiam reservar, o sonho de consumo era conquistado através de uma entrada e várias parcelas mensais, divididas em notas promissórias, por tempo determinado. Sonho realizado e agora o “novo” carro da família na garagem (isso se tiver garagem). Passamos para o que demais necessário se faz para o bom funcionamento do veículo: a manutenção. É aí que entra a figura saudosa e histórica do “mecânico’ de autos. Eram profissionais que mais poderíamos classificar como “doutores” em combustão, movimentos mecânicos ou qualquer outra designação, tanta era a dedicação destes profissionais com a ciência dos movimentos mecânicos.

Lembro-me bem que no bairro do Bixiga, na Rua São Domingos, trecho que agora tem um outro nome, havia ali uma pequena oficina mecânica em que o seu proprietário, ao receber um “paciente”, fazia-lhe uma triagem de pelo menos um dia para certificar-se do “mal” que acometia o dito “enfermo”. Logo após sua admissão ao “leito” de observação, o motor era ligado e a aceleração era conferida na lenta e na rápida, tal qual um medidor de pressão arterial, para certificar-se da “diastólica” e “sistólica”, o fluir da admissão do combustível e a perfeita distribuição das centelhas nos pistões; aberturas e fechamento das válvulas de admissão e escape e a corrente elétrica gerada pela bobina. Observações superficiais, mas importantes para se detectar o perfeito funcionamento da máquina.

Vencida esta etapa, passava o profissional médico, isto é, mecânico, à “auscultá-lo” com concentrada atenção, para detecção das mínimas e quase imperceptíveis deficiências das peças internas do motor e assim poder, agora com maior certeza, diagnosticar o tipo da “doença” e aplicar o tratamento adequado e necessário. O próximo passo era desmonte da área afetada para a correção ou mesmo a substituição da peça ou conjunto comprometido que, depois de devidamente instalado, seria testado para avaliação de comportamento e recuperação da “parte lesionada” e assim, receber a “alta hospitalar”.

Outra área dessa mesma oficina encarregava-se da reconstituição física dos automóveis, onde outro profissional encarregava-se de fazer o que hoje chamamos de “up-grade”. Era o funileiro ou lanterneiro, como alguns ainda são chamados. Tasso e martelos de vários formatos e calibres eram utilizados para reconstituir a forma original da lataria avariada, “vitimadas” que foram por ocasião de alguma trombada leve ou colisão mais remontada. Era comum ouvir-se os “tac-tac tac-tatac” do martelo remodelando as formas originais de um para-lama, capô ou porta, e mesmo outras partes do veículo. E isso durava o dia inteiro, e às vezes, dias seguidos, até que se chegasse ao que antes era.

Um agravante nesta função é que os automóveis daquela época eram estampados com a lataria mais resistente do que os de hoje. Era a famosa chapa “18” e não as “latas de goiabada” que estampam os carros de agora. Portanto, tinham esses profissionais o dom e a sensibilidade aflorada nas mãos, dedos e olhos e sabiam perfeitamente aonde uma leve curvatura ou reentrância deveria ser aplicada ou moldada. Hoje, e a despeito da modernidade e da economia global, os atuais automóveis dispõem de avanços tecnológicos, sendo que seus motores podem ser rastreados através da computação gráfica para a detecção das irregularidades e suas chaparias, substituídas por outra previamente estampada. O que viraram os profissionais de hoje? Meros remontadores de automóveis, pois assim que o tal do diagnóstico eletrônico acusa a deficiência, o “mecânico moderno” simplesmente faz a substituição da peça avariada, checando novamente através dos computadores, a normalidade do conjunto. E o que dizer da nova safra de 'funileiros'? Simplesmente são repositores de peças.

Nada contra os profissionais que se adequaram aos “novos tempos” e não aos “tempos modernos”, pois as indústrias de hoje buscam a eficiência somada à economia de tempo e valores e, com isso, minimizam os custos de seus produtos finais, que nos são repassados com a maior carga tributária dos produtos manufaturados. Injeção eletrônica, freios ABS, direção assistida eletronicamente, sensor “Lambda” etc. Deixem-me, por favor, continuar com o bom e velho carburador, câmbio mecânico com “over-drive” e a direção hidráulica. “Antigomobilistas” ou colecionadores com acervos inestimáveis são hoje exemplos daqueles que metem as mãos na massa (ou na lata) e mantêm viva a tradição das oficinas de antigamente.

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