Cães perdidos na Ponte do Piqueri

Parece anúncio desesperado de quem perdeu seus cãezinhos, mas é bem o contrário, infelizmente. Cheguei ao meio da história. Foi ontem, 19.08.09. Quando vou de Itatiba (onde vivo agora) para São Paulo, desço na Ponte do Piqueri. Atravessei a ponte para pegar o ônibus Santana no ponto de baixo. De longe, já estranhei quando avistei dois cachorros sentados ao lado das pessoas que aguardavam seus coletivos. Eram de cor castanho-claro e bem parecidos, decerto irmãos, sendo um deles pouco menor.

De repente os dois tentaram entrar numa van que fechou a porta, quase prensando o maior, que se safou a tempo. Em seguida fugiram para a avenida e foi aquela torcida para que não fossem atropelados. Voltaram ilesos para o ponto, como que procurando alguma coisa. Uma das mulheres ali presentes, mais inconformada que todos, lamentava o destino dos animais. Uma mulher chegara lá com eles. A cada passo que ela dava eles se levantavam e se aninhavam às pernas dela. De repente ela subiu num ônibus e deixou-os para trás abandonando-os. Com lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto essa senhora lembrava seu cão, falecido há cinco meses, e da amizade que esses animais dedicam a seus donos.

Olhei para ela concordando e assistindo sua angústia. A esta altura os cães pareciam ter ido embora. De repente voltaram ao ponto, decerto para ver se sua dona havia voltado. E, não fossem nossos apelos, correriam de novo para a avenida, a procurá-la. Certamente não conheciam o mundo perigoso das ruas e do trânsito da cidade. Iam para o jardim e voltavam causando-nos a angústia da sua inocência e dor, ainda que irracional.

Já falei do louco no ponto de ônibus, da mulher pensando que trabalhava numa garagem de ônibus, do homem sorriso e agora decidi falar dos cães perdidos da Ponte do Piqueri. Não sei o motivo do seu abandono e deixei de vê-los quando meu ônibus chegou. Senti vontade de registrar esse "flash" da cidade. Uma página comum de tantos livros que se pode escrever sobre São Paulo e sobre a ternura das pessoas para os cães. Ou das soluções impróprias que algumas pessoas tomam para resolver seus problemas. Fica aqui a dúvida sobre os motivos de abandonar os cães em plena ponte do Piqueri. Não me cabe julgar porque nem sequer vi a pessoa, nem posso jurar que fossem seus os cães, ou se foram abandonados. Mas a cena foi marcante e angustiante, como deparar com alguém sendo enganado.