Estamos em meados dos anos cinquenta. Sete e meia da manhã. Estação da Luz. Hoje é domingo, o céu está límpido e sem nuvens. Na plataforma do embarque está uma multidão esperando, distraída, pelo trem, envolta em pensamentos. O comboio não encostou ainda no meio fio da plataforma. No burburinho de vozes, ouço qualquer coisa. Esta qualquer coisa é, acima de tudo, uma sinfonia resignada, monótona, repetitiva, quase letárgica ao som virtuoso produzido por um violino que está nas mãos de um homem grande, moreno, sentado sob a maleta de viagem, em mangas de camisa, colete desabotoado e chapéu desabado na cabeça.
Aquele homem melodioso seria um ‘tzigane’? Um húngaro, talvez. Pareceu-me estar ali, num dia em Budapeste. E a melodia que sai do seu violino é como uma pedra atirada numa água quieta, que vai abrindo, abrindo em volta de si mesmo círculos concêntricos, cada vez maiores, até desaparecerem nas margens. E é assim mesmo. Há uma roda seleta de homens e mulheres sérios, calados, só ouvindo. Ele é o centro dessa roda. A música que sai de seu violino vai fazendo abrir-se a roda pouco a pouco, alargando-se, espichando-se, cada vez mais…
E, quando assim se vai abrindo e alargando, entram no meio do círculo, seguras pelas mãos das mulheres, algumas crianças vêm chegando devagar, não se sabe de onde, e ficam em pencas no meio daquela roda, concêntricas, mudas, imóveis, bem pertinho do músico moreno. E a roda num compasso pesado, no marca passo do violino, vai-se abrindo esticada, até dissolver-se calma como os círculos concêntricos, nas margens de uma água quieta e parada. A música hipnótica dá um gemido e pára numa síncope brusca.
No pátio da plataforma está uma multidão silenciosa, completamente silenciosa, que chego a duvidar, naquela hora mágica, da existência da língua ‘magiar’. Violino e domingo. Estas duas coisas completam-se. Todas as mulheres em volta do homem estão vestidas de chita, xale no ombro, lenço na cabeça. Colares e colares. Um resto de ‘ciganismo’ longínquo. Ali, todos os homens estão em mangas de camisa, colete desabotoado e chapéu na cabeça. Num canto da estação algumas mulheres idosas, de cócoras, oferecendo no seu tabuleiro alguns doces, balas e amendoins; e vendendo depressa a mercadoria.
Finalmente o comboio encostou e parou na linha divisória de embarque. Olhei um pouco para o relógio na torre da Estação da Luz e vi, naquele céu de agosto, já agonizante, sob o reflexo de uma lua dissipada, quebrada pela claridade do dia, como se fosse um pedaço de queijo partido ao meio. Embarquei num vagão de primeira classe, com banco de palhinha trançada com encosto escuro, imitação de couro cru. E na altura do pescoço havia uma almofada e uma fronha alva para descanso dos ombros e da cabeça. E o chefe do tráfego e do trem, homem alto e espigado, imponente, de barrete vermelho assentado na cabeça grisalha, a guizo de alerta sopra o apito estridente e forte pela primeira vez, como se fosse um sonoro alerta da partida do trem.
Fez uma pequena pausa e, no derradeiro assopro do apito, a locomotiva, movida a carvão de lenha, num repuxo formidável de esguichos e fagulhas de água fervente por todos os lados, gira pouco a pouco as rodas entrelaçadas pelo triângulo de aço. Num arranco suave e manso, coloca-se em movimento, correndo lentamente nos trilhos de aço, montados sob os dormentes de madeira, margeados de pedrinhas escuras. E lá vai ele, pouco a pouco ganhando velocidade, cortando caminhos estreitos e curvos de terra e trilhos com destino definido para a primeira parada forçada, depois de transpor as porteiras do Brás. Quietude brusca na manhãzinha recém acordada.
No declive suave do caminho, há um viaduto atirado como arco de aliança de pedra sob a Rua Cantareira, na interligação do Brás com o Pari. Da janela do vagão pode-se ver, de pé, no meio da rua, os postes novinhos de cimento armado da ‘Light’, que cruzam os braços em forma de ‘X’, e vão deixando para trás, junto ao muro de tijolos vermelhos rente ao caminho dos trilhos, um grupo de pequenas casas, todas arejadas, no fundo de uma vila de funcionários e engenheiros da estrada de ferro ‘São Paulo Railway’, na Rua Mauá.
Ali vão, com malas nas mãos, embarcando homens de suéter branco, silenciosos, que ficam apoiados com as mãos nos ferros do corrimão do vagão; há também mulheres de roupas coloridas, que seguem também silenciosas. E esse silêncio parece uma injúria; silencio na imobilidade pálida da paisagem sob o brilho do sol alvo, que agora já desponta sob as nuvens dissipadas.
E o sacolejo indolente, o ruído das rodas batendo constantemente na costura dos trilhos, o êxtase das árvores ásperas e escuras, do voo geométrico das andorinhas nas proximidades dos fios do telégrafo; dos brejos, no côncavo escuro e turvo das lagoas que a chuva do dia anterior encheu de água; na passagem do cume da torre de um moinho de trigo, onde operários executavam as tarefas de colocar os sacos de farinha sob a carroceria dos altos caminhões. E há, no meio do caminho entre Santo André e Mauá, uma cruz de madeira pintada de branco no ponteado escuro, no meio de um espesso arvoredo de eucaliptos.
Olhei ainda mais uma vez à hora quieta, que parou nas coisas para ver a paisagem nascer. Paz. Nem um estremecimento nas folhas das copas das árvores. Olhei um pouco a pequena nuvem de mosquitos que cirandou, toda acesa, à porta de uma baia de cabras Pensei nas abelhas bailando em torno das ramadas de flores silvestres. Olhei, também, a boiada esparramada nos pastos, deitadas à sombra das árvores; e o trem avança rapidamente em direção ao Riacho Grande na Vila de Paranapiacaba, no alto da Serra do Mar. Uma neblina esbranquiçada, espumante, esgarçante, sobe naquela hora enviesada do dia e lambe todo o espaço.
O trem pára no pátio da estação. Meninos em mangas de camisa oferecem maçãs, peras, tremoços e refrigerantes aos passageiros, por entre o vão das janelas entreabertas dos vagões. Apenas oferecem os produtos de seus tabuleiros, suspensos por tiras de corda trançadas sob o pescoço fino e magro. Desço do trem para esticar um pouco as pernas. Olhei para o alto e vi a água cristalina descendo em cascata, os degraus de pedra do alto da montanha da Serra do Mar. Ali, silencio. Silencio absoluto. Quietude brusca na velha estação de Paranapiacaba. O silencio só é quebrado pelo barulho de comboios, apitos, manobras, chio de chaves, trepidações dos dormentes da velha locomotiva cremalheira, de apito fino e irritante, e o chio forte dos engates dos vagões para a descida da Serra do Mar.
No ar rarefeito, sinto o cheiro característico do ozônio, do carvão de pedra queimado. Agora é hora de voltar para o trem e esperar; esperar, até a descida magnífica da paisagem folhuda entre o serrado longínquo e o olhar pertíssimo, sob o fosso profundo dos cortes dos abismos sustentados por colunas de ferro trançado. E o ruído cadenciado do louco breque de garras fortes, presas aos cabos de aço sob roldanas deitadas, que puxam pela força da tração no giro das engrenagens na maquinaria subterrânea fixada ao longo do traçado, os chamados patamares.
O trem agora está seguro pelas garras dos cabos de aço em constantes movimentos debaixo dos locobreques que se movem de cima para baixo, enquanto outros sobem a serra, também amarrados, formando um espaço no compasso dos cabos de aço, o contrapeso de uma balança perfeita. E o trem desliza suavemente serra abaixo, numa inclinação soberba. Ao longe se avista o traçado do rio Cubatão, que serpenteia entre os bananais. Da serra, sob a aurora e a bruma, faz-se mirar o pequeno raio do sol sobre a água que do alto do monte arremete, sob a rocha talhada em cascata, ao martelar pelos flancos dos abismos; sob as escarpas cobertas de vegetação e as cachoeiras que jogam suas águas nos paredões da rocha e das matas, onde brotam nascentes que formam riachos nas ruínas de Vila Itutinga e nas águas cristalinas do Rio Pilões.
Aqui em baixo, já livre da neblina da serra, a pequena estação de Piaçaguera espera pelos demais vagões que ao longe se avista, descendo vagarosamente a montanha da Serra do Mar. E compondo no conjunto todos os vagões, o trem segue na magnífica manhã, sob a planície coberta de bananeiras no amontoado caminho dos trilhos; sobre o solo dos manguezais, nas barras e desembocaduras dos rios, nas lagunas e reentrâncias costeiras, onde há o encontro do rio Casqueiro com as águas do mar. Naquele solo árido e sem oxigênio, tomado pela umidade lodosa, proliferam os caranguejos, que são pescados e vendidos ao longo do caminho por homens da região, os caiçaras.
Da janela do vagão, pude ver o Mangue Vermelho com suas raízes aéreas, o Mangue Preto, Canoé e o Mangue Botão. No céu azul avisto os bem-te-vis, o guará vermelho, o socó-dorminhoco. E no voo rasante das andorinhas e dos anus-pretos voando em círculos entre os postes do telégrafo, circundando rentes aos trilhos do trem e do negro asfalto da via Anchieta, já próximo ao Valongo, rumo à estação de Santos, a caminho do mar.