Velhos tempos

Era início da década de 60. Vindo de algum lugar do interior paulista, desembarcava pela primeira vez na Estação da Luz, na Capital Bandeirante, assustado com o ritmo da cidade. Recém completado a maioridade, o primeiro bairro que conheci foi São Judas Tadeu. Aliás, nem bairro era, pertencia ao Jabaquara. Naquelas adjacências havia uma capela com o nome desse santo que se dizia operador de milagres.

No final da Avenida Fagundes Filho, na casa da família de um amigo, passei minha primeira noite. A avenida terminava num local onde havia uma várzea com campos de futebol para as peladas de final de semana. Do outro lado da avenida podia-se ver uma igreja no alto, na Vila Guarani, cujo limite era um córrego onde havia uma pinguela que servia de passarela de um bairro ao outro. A várzea é hoje a Avenida Imigrantes e naquele córrego alonga-se atualmente a Avenida Bandeirantes.

Minha primeira aventura ao centro da cidade foi um passeio de bonde, o qual tinha o seu terminal próximo à caixa d'água, no final da Avenida Ceci. Veículo estranho e barulhento, subi pela primeira vez num ponto qualquer da Avenida Jabaquara e fui apreciando as ruas e avenidas. O comércio, o suntuoso Colégio Arquidiocesano, já na Avenida Domingos de Moraes… O motorneiro avisou a última parada: Praça João Mendes.

Apesar de ser sábado à tarde, para mim o comércio fervilhava, nunca havia visto tanta gente, pois acostumado à "semana inglesa" da cidade onde morava, o sábado terminava dolente e morno na expectativa de curtir só o "footing" na praça da matriz.

Da Praça João Mendes, de pergunta em pergunta, cheguei à Praça Patriarca, descendo pela primeira vez uma escada rolante pela Galeria Prestes Maia, que dava no Vale do Anhangabaú.

Na Avenida São João, que espanto! Eu, um fascinado por filmes, percorro a avenida, interessando-me apenas por cinemas: Art Palácio, Olido, Rivoli e, no cruzamento com a Ipiranga, o cine Marabá; do outro lado, o cine Ipiranga e, ao lado de um restaurante popular, o Salada Paulista. Percorro a Praça da República, vejo o cartaz do cine República, o maior cinema do centro com seus mais de três mil lugares.

Não me lembro em qual cinema entrei, mas assisti a um dos maiores sucessos da época "Psicose", de Alfred Hitchcock.

Quando saí do cinema, a cidade já anoitecia com suas luzes opacas, por causa da densa garoa paulistana. Eu me apavorei porque não tinha a menor noção de onde me encontrava. À noite "todos os gatos ficaram pardos" para mim, de fato!

Graças a informações educadas daquele tempo, peguei um bonde que me deixou novamente na Praça João Mendes. O caminho percorrido naquele nevoeiro, não faço a mínima ideia. Só me senti aliviado quando subi no bonde de volta a São Judas Tadeu.

Hoje, distante da minha terra, morando no estado de Santa Catarina, em Fraiburgo – ‘Terra da Maçã’ – lembro-me daqueles bons tempos de uma São Paulo quase provinciana, de gente respeitosa e educada.