Manjuba

Em 1948, trabalhava na Mesbla, que ficava na Rua 24 de maio e próxima à já conhecida Salada Paulista. Meu setor de trabalho era na área de crediário e informações comerciais. Como o serviço era volumoso, eu não estava dando conta recado.

Pedi ao meu chefe, Sr. Eduardo, a possibilidade de trabalhar até as oito horas da noite, isto é, duas horas a mais; ao invés de sair seis, sairia às oito. Ele aprovou e me deu um aumento para cobrir as despesas com o lanche, que seria por minha conta. Logo imaginei: como seria bom eu comer todos os dias na Salada Paulista.

Findo meu expediente, ia direto, a pé, para a Rua do Gazômetro, rever e bater papo com os amigos. Havia no grupo um rapaz tímido, humilde, de poucas palavras, que morava pelos lados da Rua Maria Domitilia e diziam que era de família muito pobre e com problemas familiares. Um dia, para surpresa minha, ele me convidou para ir jogar futebol no time do Vasquinho, que era da Rua Mons. Andrade e, segundo ele, o jogo seria contra o Campos Sales, com quem mantinham uma grande rivalidade.

Ganhamos de 2 x 0 e eu fiz os 2 gols. Pensei: “esse Manjuba é iluminado, entre tantos jogadores de qualidade, foi escolher justo eu, que não sou lá essas coisas”. Dois anos se passaram, eu mudei para a Vila Mariana e perdi o contato com Manjuba. No fim da década de 60, estava cuidando dos meus afazeres no centro e resolvi ir comer na Salada Paulista. Para minha surpresa, lá estava o Manjuba, trabalhando no caixa. Ele não me viu, mas me pareceu triste e atrapalhado.

Notei que os garçons falavam entre eles, faziam algumas críticas ao caixa. Pensei: “coitado do Manjuba, vai perder o emprego”. Como eu estava próximo ao caixa, quis dar um alô de despedida, porém me dei conta que eu não sabia seu nome verdadeiro. Estava recebendo o troco, quando ele me viu, e aproveitei para dar um “tchauzinho”. E ele, com a palma da mão aberta, fez um sinal para eu esperar um pouco. Logo ele veio, e eu fui logo dizendo: “que bom que você está trabalhando aqui”.

Quase caí de costas quando ele respondeu: -“Eu não estou trabalhando aqui, eu sou o dono de tudo isto. Ganhei de herança de uma tia que morava na Alemanha, que eu nem sabia que existia”. Não soube o que fazer, não entendi nada. Ele precisou voltar para o caixa e nunca mais o vi. Soube, certo tempo depois, que no mesmo local foi aberto um McDonald's. Cheguei até a ler algumas críticas sobre o fechamento da Salada Paulista porém, cada um sabe onde lhe aperta o sapato. O Manjuba fez o certo. Não vou ficar lamentando por que vou ficar sem comer uma salada paulista, o importante é que tímido e humilde, mas iluminado Manjuba, vai comer caviar para o resto da vida. Ele merece.