O dia era 19 de janeiro e o ano, 1982. Estava em férias, em São Paulo, e junto com minhas primas, que moravam no Aeroporto. Fui até o Bixiga de ônibus, pela manhã, visitar meus tios. No retorno, logo após o almoço, vimos a Avenida Brigadeiro Luís Antonio, onde pegaríamos o ônibus de volta, parar por completo. Diante de nós, presenciamos uma imensa massa humana enfileirada.
Alguns choravam, outros folheavam jornais em busca de notícias, outros carregavam compactos e ‘long-players’, flores, orações, terços, vasos, fitas, ‘posters’ e revistas; perplexas, indagamos o ocorrido. Perdemos Elis, Elis Regina. A enorme fila levava ao Teatro Bandeirantes, onde estava sendo realizado seu velório, aberto ao público. Choramos emocionadas diante da triste e incontestável notícia.
Particularmente, chorei silenciosamente, pois gostaria muito de um dia poder ouvi-la em um show, e estava diante de mim a única oportunidade de expressar-lhe, como muitos, um saudoso adeus. Encaramos algumas horas de fila, repletas de passos respeitosos e silentes. Naquele final de tarde de verão, próximo às 17h, estávamos nós diante da entrada do Teatro e protegidas por um cordão de isolamento que nos levaria até o esquife de Elis.
Ordeira e velozmente, pessoa a pessoa, rapidamente despediam-se dela, à melhor maneira. Olhei-a ternamente, estava maquiada e usava uma camisa com a bandeira brasileira, sem inscrições ou simbologias detalhadas. Achei-a bonita e muito jovem ainda e, em minhas orações, desejei que tivesse paz e que pudesse um dia retornar com maior boa sorte.
Sequer reparei nos muitos artistas presentes. Lembro-me vagamente que vi o Maestro Miéle, entre outros. Na saída, uma leve brisa acariciou-nos e, na volta para casa, uma séria reflexão: de como a vida pode ser intensa ou fugaz. Ao ler uma reportagem da jornalista Vera Tabach, sobre a partida de Elis há 26 anos, por sinal, excelente e detalhada no Jornal Espaço Vip (Gosto de ler).
Decidi compartilhar aqui, mais uma vez, sobre esta minha experiência verdadeira e tão marcante em minha juventude.