Despedida

É velho cunhado, você foi embora! Não houve tempo sequer para um adeus ou, pelo menos, para um derradeiro aceno, um olhar ou sinal. Seu coração, magoado pelas injustiças e desmandos cada vez mais notórios, fraquejou. Não suportou a carga provocada por essa desenfreada correria a qual somos submetidos, pela pressa desordenada das cobranças, que não permite um só abraço, um carinho ou um aperto de mão.

Perdoem-me. Não é a cidade que se agita nessa turbulência incontida, mas nós, seus mais diletos habitantes é que a destruímos sem constrangimento ou pudor e desencadeamos os desvarios e desmandos que antagonicamente sobrepujam sua exuberância natural. Seu clima inexplicável, sua garoa e aroma não mais presentes, sufocados pela fumaça dos carros e pela ignomínia dos arranha-céus, matando sem nenhuma resignação as nossas expectativas, anseios e esperanças.

A verdade é que nos tornamos frios e insensíveis diante das vicissitudes e do crescimento desordenado e incontido das coisas e nos esquecemos de valorizar a vida, a franqueza, o amor. Tornamo-nos escravos do poder, do capitalismo, dos vícios e hábitos que se impregnam em nossos corpos, vilipendiam nosso organismo e aniquilam as nossas perspectivas e credibilidade.

Que as luzes dessa cidade que você tanto amou especialmente as praias ensolaradas do litoral norte, velem o seu espírito e iluminem a sua bondosa alma, onde paradoxalmente no peito fulminado pela brusca debilidade, havia um lugar especial reservado aos amigos e familiares, habitado pela ternura, sensibilidade e pela fé incomensurável em Deus.

Despedida

Cerrou-se a sua voz de forma tão sombria
E a luz que ainda ofusca o seu olhar em pranto,
Por certo irá fazer com que da noite o manto
Deslinde lá no céu mais uma estrela guia

Os anjos vão cantar como nunca se fez
Com hinos tão suaves e coros retumbantes
Calar-se-ão os pássaros pela primeira vez
Para se ouvir ao longe, clarins a todo instante
Os mares falarão deste destino atroz
Que abala e que machuca e a todos descontenta

Como é renhida a luta, que mundo tão feroz
Sobreviver é como se impor, ante a tormenta
E quando lá do alto sua imagem pontilhar,
Mostrando a insensatez da crua realidade,
Os nossos corações de tédio vão chorar,
Lembrando um adeus, deixando uma saudade.

Homenagem ao passamento de Antonio Gonçalves Sant'Ana, falecido em 15/02/2010.

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