Quando atravessei a ponte das bandeiras

Morei algum tempo no jardim paulistano, mais precisamente na Rua Grécia, ao lado do jardim América e jardim Europa. Dois bairros habitados por gente da mais alta sociedade paulistana. Naquela época já existia o Clube Pinheiros, mais o Shopping Iguatemi e a Avenida Faria Lima ainda eram projetos, que vieram mais tarde.

Para falar a verdade não me sentia muito bem morando naquela região, muita gente rica nos cercavam morando em grandes mansões e desfilando grandes carrões importados, Cadilac, Ford Fairline, Chevrolet belair, Mercedes, Jaguar etc., mas parecia que os carros andavam sozinhos não se via cara de ninguém.

Meu irmão mais velho entre os solteiros trabalhava no laboratório Fontoura White na Via Anchieta e tinha um colega que morava na Zona Norte da cidade, Santana, mais precisamente na Rua Dr. Cezar. Este colega de meu irmão se chamava José Cruz, apelidado no bairro por índio, e vivia insistindo que Santana era o melhor bairro classe média para se morar em São Paulo. Isso na década de 50.

Tomamos então a decisão de nos mudarmos para Santana, o meu irmão Tim foi à frente para alugar uma casa. Saímos com o caminhão de mudança com destino a Santana, sem saber direito onde ficava este bairro, eu só sabia que tínhamos que atravessar a ponte das bandeiras sobre o Rio Tietê.

A ponte tem esse nome em homenagem aos bandeirantes paulistas que partiam com suas bandeiras daquele local rumo ao oeste brasileiro em busca de ouro e pedras preciosas, isto resultou na expansão do nosso país que rompeu a divisa demarcada no tratado de Tordesilhas onde Portugal e Espanha pensaram que podiam dividir a América.

Atravessando a ponte, entramos na Rua Voluntários da Pátria, principal rua de ligação com o centro da cidade, começamos a cruzar a Rua da Coroa, Rua da Aviação, Av. Ataliba Leonel, Rua Alferes Magalhães, Rua Darzan e chegamos na esquina com a Padaria Polar, e entramos pela esquerda na Rua Dr. Cezar mais alguns minutos e chegamos a casa onde moramos por muitos anos.

Logo nos primeiros dias no bairro já deu para sentir que estávamos morando em um bairro de classe média de gente simples e atenciosa, onde com certeza iríamos fazer muitas amizades, na verdade era isso que estávamos procurando. Como bons brasileiros minha família era toda ligada em futebol e de imediato fomos procurar algum clube para jogar.

Eu e meu irmão Euripes fomos jogar no juvenil do Três de Maio um clube com sede na Rua Eliodora e campo de futebol próximo do Campo de Marte no pé do Jardim São Bento, onde havia um colégio de padres. Mas, fomos informados que havia outro clube muito próximo de nossa casa com sede na Rua Carlos Escobar e campo de futebol na Várzea do Tietê, Avenida Olavo Fontoura, era o grêmio Giovanini.

Este time era considerado um dos bichos papões da várzea paulistana, dificilmente perdia, chegando a ficar invicto por quase dois anos. Vale lembrar alguns nomes de jogadores que jogaram naquela época: Álvaro, Patinho e o Haroldo, goleiros; Air Mosca, Boquinha, Nicolas, Tim, Chicão, Ninho, Nelsinho, Natal, Euripes, Bitu, Dalton Alemão, Mario, Ceci, Canhoto, Babá, Osmar, Alexandre, Luiz, Bruno, João Louco e Chemim.

Uma passagem interessante do Grêmio Giovanini, foi num domingo na várzea lá do Anhembi, quando faltaram adversários para o grêmio e para o clube vizinho Guarani do bom retiro. Um diretor do guarani atravessou o campo e foi nos convidar para um jogo já que os times estavam sem adversários o convite foi aceito e iniciamos o jogo já nos primeiros minutos deu para perceber que o adversário o Guarani do bom retiro era muito fraco.

Resultado 8 a 0 para o Giovanini. Isso gerou uma tremenda gozação da nossa turma, mas o diretor do adversário nos cumprimentou se mostrando surpreso com o nosso time. Santana era muito mais a nossa cara, a gente saia na rua e sempre encontrava um bom amigo para conversar. Na Rua Dr. Cezar estava outro clube que foi extinto com a construção da Avenida Braz Leme.

Quem não se lembra do Sr. Sebastião Romeu, do Sr. Ardélio, do Sr. Duílio, Pedrão, Machado, Emilio, Zé Espanhol, Zezão, Carlinhos, Banha, Vado, Nelsinho, Nicolas, Parafina, Zé Amadeu, Eliseu, Felipe, Air Mosca, Dalton, Zamana, Gaúcho, Constantino, Caçapula, Nilton Palma etc. Essa turma frequentava o clube dia e noite.

A esquina da Rua Dr. Cezar com Rua Salete era o local escolhido pelos políticos para fazerem seus comícios, em épocas de eleição aquele pedaço era quente. Eu vi por lá os políticos mais famosos como Ademar de Barros Jânio Quadros, Prestes Maia, Emilio Carlos, Carvalho Pinto, e até o Carlos Lacerda certa vez veio do Rio para discursar. Lembro-me que era uma pessoa muito inteligente e encerrou seu discurso cantando o Hino Nacional em altos brados, só que era contra tudo e contra todos.

Andando mais um pouquinho a gente chegava até a padaria polar ponto de encontro dos jovens santanenses, ali a gente se reunia e ficava conversando até a hora de ir para casa. Quem quisesse esticar a noite ia até a Rua Alferes Magalhães no bar do Justo comer o melhor sanduíche do bairro e tomar o melhor chopp. A rua principal era a Rua voluntários da Pátria, seu charme era ser utilizada para se fazer o passeio aos domingos onde moças e rapazes se flertavam e muitos namoros começavam ali.

A rua tinha dois cinemas Vogue e Hollywood e todos os bons filmes exibidos na Cinelandia do centro, a gente assistia ali mesmo. Hoje infelizmente com a chegada do metrô que todos desejavam, foi construído um terminal de ônibus para integração com todos os bairro da Zona Norte, o trânsito de pessoas aumentou muito, a ponto de a gente andar na rua e não conhecer mais ninguém. Santana dos bons tempos, agora ficou só na saudade.

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