"Sete parágrafos"

I – Peculiaridade paulistana, "paulistanice": uma praça que na verdade não é! Sim, sem exagero: o logradouro tido como "praça", não o é, mesmo. "Praça": o vocábulo traz à mente, de imediato, imagens como árvores, bancos de madeira ou de cimento, gramado, flores, monumentos, chafariz ou fonte luminosa, não? É o caso então da Praça Doutor Teodoro de Carvalho? Não. Basta comprovar, in loco. Árvores? Bom, no estreito canteiro central (ilha), a separar as duas mãos de tráfego, bem que há três árvores, uma fileirinha. Já na calçada, remanesce uma velha tipuana, próxima ao muro branco. Daquelas de meu tempo de moleque: coisa de meio século, nossa! Oficialmente, garantem as placas, é praça, ponto final. Tão pequena que quase nem aparece nos mapas (plantas dos guias). É, pois, praça.

II – Praça é que não é: toco de rua. É um quarteirão e só. Perpendicular, numa ponta a Domingos de Morais, lá pelo número 1200; noutra ponta, à junção de Vergueiro com Professor Noé de Azevedo (que não existia no tempo da estação dos bondes). De um lado da calçada da praça, apenas um prédio residencial, só. Cinco andares, geminado com uma concessionária de autos que dobra a esquina da Noé. Na calçada do outro lado, o tal muro branco, que é extenso, abraçando o enorme terreno retangular, onde outrora a gare de bondes, hoje canteiro do metrô (já faz um bom tempo). Pois dentro do terrenão, ao lado da praça, por trás do muro "insípido", a gente vê um escombro: um grande esqueleto daquilo que foi um posto de gasolina. Posto esse erguido depois de demolida a estação. Estação de bondes que era uma identidade do bairro, uma verdadeira referência de Vila Mariana: virou pó…

III – Belas e imponentes instalações, a gare. Predião de tijolinhos avermelhados, na Domingos. Estendia-se até a Vergueiro, por sobre cujos muros podiam se ver as roldanas das alavancas dos bondes nos fios do pátio. Muitos recordarão. E se não me engano, o prédio era de 1912. De acordo com ilustrações de arquivo. Bondes alinhados, paralelamente, muitos deles. Aguardando reparos ou descansando; carro-socorro e carro-guindaste. Lugar de grande concentração de motorneiros, cobradores, fiscais e operários. Um marco de Vila Mariana. Assim como o grande reservatório da hoje Sabesp, o Marechal Floriano e o lindo Instituto Biológico com a "fazenda", sem esquecer aquele que terá sido um dos mais belos jardins da Cidade: o Largo Dona Ana Rosa (depois do advento do metrô, restou um escombro, um rascunho). Lembro de um bonde camarão alaranjado. Permaneceu abandonado por bom tempo no pátio desativado: à própria sorte, ou melhor, ao próprio azar… Provavelmente assolado por vândalos, desapareceu.

IV – Moleque, anos 50, eu morria de vontade de entrar na estação, conhecê-la por dentro. Bondes notavam-se da rua, alguns pintados de novinhos! Chão com valetas nos trilhos de onde os trabalhadores inspecionavam os bondes, por baixo, utilizando lâmpadas. Trilhos, fios, cheiro de oficina. Atmosfera de manutenção: operários de macacão, mãos de graxa. Igual a meu pai, na Light do Cambuci. Minha imaginação voava lá para dentro, ao passo que os pés nunca transpuseram os grandes portões de ferro, quase sempre entreabertos, aguçando a curiosidade. Como sabemos das três estações de bondes, Glete, Vila Mariana e Brás, só a última é que se manteve em atividade. Passada a era dos bondes, foi garagem de trólebus. Depois, até hoje, garagem de ônibus. Garagem do Brás, outra referência. Galpões industriais, chaminés, casarões; escolas, hospitais, igrejas, praças e jardins; prédios públicos ou estações. Muitos são identidades paulistanas, compõem a personalidade da Cidade, não?

V – Estação de bondes de Vila Mariana. Demolida, coisa de uns quarenta anos, nem sei mais. Bem que poderia ter tido outro destino. Mais glorioso e útil que canteiro-de-obras (posto de gasolina, então… um esculacho!). Um grande centro de formação técnico-profissional, de transportes, um museu mais abrangente… Falta de interesse do poder público. Falta de criatividade. Picaretas e marretas deram-se as mãos: botaram no chão um pouco da história do transporte de São Paulo. Surgiu, então, aquela atual assombração de alvenaria…

VI – É de duvidar que um velho bonde – fantasmagórico, que viesse surgindo da memória paulistana… Que ele viesse rolando por sobre os trilhos da imaginação, na madrugada de estrelas de Vila Mariana. Só para matar a saudade. Duvido que o bonde adentre o lugar. Hoje, lugar de aspecto monótono, inexpressivo, lugar que não guarda sequer uma polegada de saudade dos bondes. Aquilo é um grande escombro.

VII – Do meu tempo de moleque, a Praça era orlada de tipuanas, chão de paralelepípedos. Tipuanas, outrora também marca do bairro: muitas das ruas eram abençoadas pelas frondosas árvores. A solitária tipuana, remanescente, hoje inclina um pouco a copa para o asfalto: recusa a sombra à calçada, ao lado do feioso muro. Também ela, a sombra – quem garante que não? – é uma sombra de saudade. De quando, dias de calor, hora do almoço, amenizava o cansaço dos trabalhadores da estação. Para paulistanos que não esqueceram da estação dos bondes, cada pequenina folha daquela velha árvore, que cai, é como lembrar de cada tijolo desagregado, da demolição da gare. É como se em vez da gravidade, uma outra força – a do sentimento – desagregasse as folhas verdinhas. A tipuana sequer lamenta: afinal, as raízes dela estão cravadas num pedacinho de chão (de Vila Mariana) cujo passado de tradição o tempo haverá de conservar…

E-mail do autor: [email protected]