Memórias do Cambuci

No ar sossegado e arrepiado da manhãzinha,
há um riso fino de guizos,
no pescoço do rebanho de cabras assustadas,
brancas, pardas e malhadas,
que fincam o casco bifurcado nas pedras e nos cimentos das calçadas,
e vão arranhando com seu pelo áspero de capacho,
e seu passo sem ritmo,
no arzinho macio daquela hora recém acordada na manhã dourada de sol,
no bairro do Cambuci.

Na calçada, um homem de burel grosso,
colete chocalhante de pratas,
casaco de estamenha enrolado e dobrado ao ombro,
o chapelão preto batido na testa,
o cabreiro descadeirado de vara na mão,
conduz a turma pela Rua do Lavapés
para num portão de uma casa velha, onde há um doente,
o nariz vermelho, espremido no vidro opaco de uma janela entreaberta.

Ele ordenha a cabra espevitada,
que cabriola no passeio;
enche o copo pequeno de um cruzeiro;
cata o troco difícil na algibeira esfolada, deformada,
arreganhada no colete do casaco. Os níqueis cantam.
As campainhas brincam de novo, no pescoço das cabras, ao longo das ruas, e o rebanho segue, arranhando com seu pelo áspero de capacho,
e seu passo sem ritmo pela subida arrastada, alongada,
quase cansada da Avenida Lacerda Franco,
próximo ao cemitério de Vila Mariana.

Depois, numa volta rápida, despenca num declive abrupto,
pela Avenida Lins de Vasconcelos,
de calçamento novo e vai até o largo do Cambuci.
A principio a rua é reta, plana e bem calçada.
Mas, de repente, quebra-se e descamba numa ladeira brusca,
despenca de buraco em buraco, até uma rua transversal, poeirenta.
Rua da Independência.

À direita, casas novas e boas;
à esquerda, um matagal sobre um vale folhudo sob a várzea do Glicério. Estou agora junto a um bebedouro para animais numa praça arejada
e de velhas construções no largo do Cambuci.
Desço pela Rua Luiz Gama. Caminho por ela até um areal espraiado
nas margens do córrego Tamanduateí.
Dois meninos alourados, em roupas de algodãozinho listadas
e suspensórios presos a dois botões das calças curtas,
caminham pela rua. Discutem. Ouço, por acaso:
– Olha que digo ao teu pai!

Aquele "teu", neste país do "você",
orientou-me logo. Aquele "teu" e mais um escrito a óleo amarelo,
que leio na caliça fresca de uma casa: J. Vieira,
"músico e jardineiro" pensei logo: Portugal!
Olhei um pouco para uma velhinha com seu xale de seda preto,
que vinha de cima da rua em minha direção,
e acenou-me com um ramo verde na mão,
e pensei naquele instante na mulher moleirinha,
tangendo o toc, toc, toc o seu jerico ruço,
com o galho verde de uma giesta em flor…

Vi uma menina que vinha tocando com uma vara curta
uma cabrita por um atalho de terra vermelha, estorricada, da Rua Ana Neri e pensei na boieirinha linda, de agulhada em punho,
guiando a carrada cheia, entre o canto dos galos e o gemido das noras.
Olhei um pouco para o céu e vi entre nuvens brancas
o desenho de um carneiro se esfumaçando no ar.
Uma pequena nuvem de mosquitos que cirandou toda acesa rodopiando à porta do cabril pelos lados da Clímaco Barbosa
e pensei nas ceifeiras bailando em torno das espigas de milho,
brilhando sob o sol do meio dia;

Olhei os bois e as cabras, pastando sob o verde dos capinzais
na várzea do Tamanduatei e pensei nas mós douradas
nas eiras das aldeias ao luar de Agosto.
Ao longe, avistei as torres da igreja do Cambuci,
espetadas num céu cor de vidro.
Olhei também, para o ponteado alvo do Cemitério de Vila Mariana,
numa descida abrupta, como se lá fosse um rebanho parado na distância,
e pensei nas vovós e bisavós que ali estavam sepultadas.

Olhei, também, o homem que caminhava ligeiro pela Rua José Bento,
e distingui nele o pastor de cabras escalando montanhas,
o surrão a tiracolo e todo branqueado e douradinho do sol;
olhei um pouco o chacareiro de calça cor de pinhão,
que corria os seus canteiros azinhavrados,
para além dos arames farpados das cercas da Rua Barão de Jaguará
e pensei no cavador de enxada pelos caminhos da casa
com o seu ancinho ao ombro e os seis filhos que Deus lhes deu.

Vi os pequeninos, lá longe, brigando, saltando o córrego do Lavapés,
e pensei nos pobrezinhos, em alcatéias, pelas herdades e aldeias,
como trapos levados na ventania, dormindo pelos alpendres das casas.
Olhei um pouco para o frio céu, nos altos de Vila Mariana
entre o funicular da Vergueiro com a Domingos de Morais,
e pensei em certas velhices que foram muito amigas de certas meninices,
e nas velhas amas feitas para cantar cantigas para a gente dormir
e se lembrar daqueles lugares escolhidos de Vila Mariana e do Cambuci. Subi do fundo do vale e do fundo de mim mesmo
para o presente aqui em cima,
e para a realidade lá embaixo.

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