Há tantos bairros na cidade de São Paulo, os quais apenas seus moradores os conhecem. Apesar de não enxergá-los da mesma maneira, ninguém os vê indiferentemente!
Estonteantemente bela, ensurdecedoramente barulhenta, congestionada de gente e tráfego, atordoante em suas paisagens, infinitamente variada e experimental em comidas, cultura, museus, igrejas, é uma cidade que se orgulha de ter simultaneamente um pequeno e recente passado e é, também, parte vibrante e viva do mundo moderno.
A minha São Paulo é tudo isso, mas o que me fascina são os arredores por trás da grandiosidade desta cidade: ruas estreitas (como foi a da minha infância), onde gerações de famílias viveram, amaram, trabalharam, morreram e por ali foram enterradas.
Ao longo dos anos por elas andei com meu pai e, depois, com amigas explorei seus bairros que me pareciam labirintos, todos eles centralizados em torno de uma igreja, uma pequena praça, escutando conversas, cultivando amizades, lendo história e literatura, estudando a arquitetura que foi inspirada pela religião e pela vida diária.
Por estes lugares passeei com meus filhos, a pé, enquanto lhes contava suas lendas e histórias. Era como se estivesse remoendo meu passado e revelando-lhes as singularidades e sonhos que vivi.
Penso que temos como cofres dentro de nós e, aos poucos, quando ficamos maduros vamos removendo coisas que, um dia, tentamos enterrar ou ignorar. Gosto de ser capaz e de manipulá-lo como aquele que um dia enterrei, para poder voltar, no fim, ao meu centro equilibrado.
Esse talvez seja o motivo pelo qual amo tanto São Paulo, porque ela existe graças ao seu próprio ato de equilíbrio: um pouco de história de todos os tempos, afinal tempos os imigrantes, ao lado da reverencia pela vida, memoriais juntos a monumentos à família, o pós-modernismo mais louco a alguns metros de obras antigas que deveriam ser preservadas com o maior carinho. Toda essas maravilhosas contradições, juntas, formam sua simetria, porque a beleza de um lugar está na variedade e não na uniformidade.
Como é bom tomar um ônibus, passear pela Avenida Paulista, as horas correndo em um devaneio de passado misturadas com a agitação da vida moderna. Fuçar barracas onde vendem de tudo (achei uma de livros usados), observar por algum tempo pintores, que um dia ainda serão famosos transformando uma simples parede em objeto de arte, escutar os músicos de calçada tocando diariamente (com a anuência da prefeitura) fazem-me pensar que os moradores de São Paulo só deveriam dela sair depois de conhecê-la intimamente. Caminhar pelas ruas e viadutos na luz suave, prateada, do começo da noite é de uma beleza ímpar. Na entrada do metrô ver os jovens músicos, sentados no chão com as pernas cruzadas tocando violões, saxofones e flautas nos emociona tanto!
Aliás, em algumas estações de metrô, a prefeitura colocou lindos pianos para serem tocados por pessoas anônimas que por ali passam. Então de repente, apenas de repente, ouve-se uma música no ar que é um misto de clássica com popular tocada de coração, com rara habilidade e aí, tenho certeza: quem a escuta volta mais calmo e feliz para casa.
É uma linha contínua, mantendo-nos juntos, através de gerações e idades. Jamais conheci alguém que pudesse mover-se à vontade entre gerações e que soubesse onde se encaixar entre elas. Percebo que São Paulo é um lugar infinitamente maior do que pensávamos e com mais lugares para todos se integrarem. Basta termos disposição e coragem para nos entregar!
Lembrei-me de uma citação de Shakespeare: "tão santificado e gracioso é o tempo… é uma ocasião para comemorar sonhos… para jantar, dançar e amar"!
E-mail: [email protected]