As belezas no caminho do trem

Trem é fantástico. Não sei bem a razão, nem tão pouco tenho explicação, porém, quando vejo um trem em movimento tenho a sensação que ele vai em direção ao paraíso, a um lugar encantado. Minha primeira viagem de trem foi no mês de janeiro em meados da década de 60. Fui com minha mãe visitar uma comadre em Jaú. Esse trem tinha primeira classe com um luxuoso restaurante, mas nós fomos de segunda mesmo e foi inesquecível.

Partimos da Estação da Luz por volta das 22h, sobre a luz do luar viajamos a noite inteira e chegamos ao amanhecer, no cantar do galo. Da estação se ouvia toda a cantoria e minha mãe disse que eles davam as boas vindas para quem vinha de longe e na casa da comadre, mais, boas vindas. A família toda acordada, o fogão à lenha estava aceso de velho, pão de queijo assando, bolo cheirando, o cafezinho tinha acabado de ser passado, e então tivemos dias de muita alegria.

Em janeiro, no início da década de 70, fui conhecer o mar, em companhia das amigas do meu primeiro emprego no Apsen Laboratório Farmacêutico, localizado à Rua João Ramalho, esquina com a Rua Barão do Rio Branco, no amado bairro de Santo Amaro. Fomos de trem, bem cedinho partimos da Estação João Dias em Santo Amaro. Minha mãe tinha feito um "rosário" de recomendação, para eu não andar de um vagão para o outro no trem, (a passagem entre um vagão e outro era aberta e ficar na beiradinha da água). Coisas de mãe.

Não me recordo bem o percurso, mas é nítida na lembrança a paisagem belíssima da natureza. E enquanto nosso trem descia, outro subia no cabo de aço. É o que diziam. Depois de um dia de tremenda aventura, a volta foi salgada, não tinha água doce para o banho. Já se passaram tantos Janeiros! Início de 2009, ao ficar horas após horas no carro ou no ônibus no trânsito da Marginal vendo nosso trem da linha Esmeralda passar eu resolvi mudar.

Decidi ir de trem! E numa manhã ensolarada, na estação Interlagos: Lá vem o trem, imponente, faceiro e vem ligeiro. Não é o trem das 11 é o trem das 10. Não é nenhum dos doze trens novos, este é velhinho, mas era bem cuidado, conservado, limpinho, cheio de energia e muuuita experiência, faz bonito a qualquer novinho. Está um pouco lotado, não vai dar para ir sentado, mas ele não pega trânsito, então vamos apreciando a viagem.

Logo depois de contornar o ex-aterro sanitário, que agora está todo gramado e com várias moitas de bambu verdinho onde está sendo feito à ciclovia, nós vamos encontrar o Rio Pinheiros. Alguém de bom coração está cuidando das margens do Pinheiros, isto está atraindo pássaros de várias espécies, dentre eles tem um amarelo quase dourado que assim como os demais veio tirar o alimento da grama que está bem aparada.

Um pouco mais adiante uma numerosa família de capivara, felizes, tem até um filhote tomando sol de barriga pro ar, e eu consigo notar a alegria no olhar daquele pequeno, então me encho de fé e esperança de ver nosso Pinheiros limpo um dia. Chegando à estação Santo Amaro, na margem oposta, aos fundos da empresa Bayer, tem uma árvore “chorão” com seus longos galhos quase tocando a água, repleta de pontos brancos e em um espetáculo mágico, as brancas garças partem em revoada.

Os passageiros ficam abismados. Quem vai de carro, moto ou ônibus não conseguem ver essas belezas, mas quem vai de trem vê muito bem. O Pomar Urbano (ex-Projeto Pomar) está florindo num colorido exuberante. E vamos prosseguindo, juntinho do Pinheiros, e de tudo já foi feito com ele, até o rumo dele foi mudado. Ele é o único rio que sobe. Tem o sistema de flotação, tem a barcaça numa limpeza constante e incessante, retirando do leito do rio toneladas de lixo, mas tem sido quase tudo em vão, falta consciência e colaboração da população.

Centenas de arranha-céus estão sendo construídos a cada dia, e próximo à Ponte Octavio Frias, (Cartão Postal da nossa Cidade) tem um prédio diferente, um pouco mais baixo que os demais, com a fachada arredondada todo espelhado, acabou de ficar pronto. E nesta região, em uma das mais caras de São Paulo, entre o luxo e o lixo, segue ele, singelo, judiado, sofrido, mas resistindo.

Do trem eu me ponho a pensar: São milhões de pessoas que vivem na região, outros por esses prédios transitam, tantos outros milhões pela Marginal vem e vão. Quantos vêem o Rio Pinheiros? Quantos ao menos notam sua presença? Quantos o ignoram ou tem por ele indiferença? Quem saberá? E assim vai, vai o trem, entre as belezas e tristezas, vai o trem…

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