Ficava no começo da Alameda Glete, continuação da Martim Francisco, antes de se chocar com o Minhocão. Este já dominava o fundo da rua, com sua maciça e sombria presença e não era de bom augúrio para um restaurante tão bom, e pitoresco. Tinha nobre origem:fôra fundado pelos mesmos donos do Bar Brahma. Alguns de seus cozinheiros e garçons tinham vindo a bordo do Winduk, navio que deu origem a mais de um bom restaurante. Sua entrada, elevada, era alcançada por um lance de escadas, enquanto a garagem afundava no solo. Separadas do balcão por um longo e estreito corredor, havia uma série de "cabines" privativas, forradas de madeira escura, isolando as mesas. E podia-se chamar o garçom, de preferência o Seu Otto, por uma luz verde, que era acionada na "cabine" por um botão. A música também era sintonizada e aumentada por outro botão, na parede ao fundo da mesa. Curioso mesmo, não acham?Excentricidades à parte, eram ótimas a comida e o atendimento. Pratos preferencialmente germânicos, e belo chope. Dos gentis garçons, como já disse, destacava-se o Seu Otto; já idoso, alto, queixo quadrado, a cabeça raspada e uma orelha mutilada, parecia um personagem dos filmes expressionistas de Murnau,ou Fritz Lang. Quando chamado, parecia que até viria batendo os calcanhares – "jawohl, mein herr!" Como se estivesse na Wermacht, ou no seu perdido Winduk, onde fizera parte da tripulação.
Meu pessoal da MPM ia sempre ali, que aliás, ficava bem perto da agência. E tinha sempre um tratamento especial. Numa das últimas vezes que fomos lá, José, um dos donos, queixava-se desanimado do fraco movimento. Qual seria a causa? O minhocão, que tudo degrada?
Mas quando conheci o Kakuk o elevado já lá estava, e a casa era bastante frequentada. Aqui, sucesso e fracasso desencadeiam-se rapidamente, na cidade implacável.
Mal minha agência foi transferida para a Vila Olímpia, soube do fechamento do bom Kakuk. Teria sido este o golpe definitivo? Brincadeira, mas só o fato da mudança da agência para um lugar mais "moderno", já demonstra o agravamento da decadência da região central. E o pobre Kakuk afundou nessa onda. São Paulo parece Saturno, o Tempo, que devorava os próprios filhos. A gente que se cuide!