Sempre me emociono ao ler relatos e recordações sobre São Paulo de outrora. Apesar de meus 80 anos, sou um internauta novato e resolvi também contar alguns fatos de minha infância e mocidade vividas no bairro do Brás. Nasci em 1929 na Rua do Gasômetro onde morei até 1950, sempre na mesma casa. Li um e-mail enviado para este site que dizia para as pessoas não se prenderem ao passado e sim fazer planos para o futuro.
Apesar das boas intenções do amigo, discordo, pois o futuro a Deus pertence e só peço saúde e lucidez para recordar os momentos felizes que o Brás me proporcionou. São épocas diferentes, hoje se culpa a pobreza quando se rouba um tênis, por não poder comprá-lo. Naquela época pobreza não era desculpa para nada, mas sim um incentivo para criar uma família descente, para que se tivesse um futuro melhor.
Se não tínhamos calçado, brincávamos descalços. Se não tínhamos bola, fazíamos uma bola de meia. Meus pais eram espanhóis, porém lá residiam em sua maioria famílias italianas. Eram trabalhadores alegres e solidários. Nessa época o Brás viveu o seu apogeu, com muita alegria e muita festa. Nesta história vou contar um fato no mínimo pitoresco.
Na época foi considerada uma brincadeira de mau gosto. Em 1940 ou 41 eu tinha uns doze anos, o cantor Orlando Silva no auge de sua fama, veio cantar no cine Glória na Rua do Gasômetro. Todos sabiam que o cantor tinha um defeito na perna e quando andava mancava. No dia da apresentação o cinema lotou e uma multidão se formou do lado de fora aguardando a chegada do cantor.
Ao lado do cinema havia um bar e bilhar. Os moços frequentadores do bar arrumaram um sócia do cantor e quando todos estavam ansiosos pela chegada do Orlando Silva, o tal de sócia apareceu na frente do cinema com um pé em cima da calçada e outro pé abaixo da guia da calçada.
Quando ele andava mancava e os moços gritavam, ele chegou, ele chegou. Enquanto os rapazes aplaudiam, as fãs furiosas tentavam agredi-los. Felizmente o verdadeiro Orlando chegou e tudo terminou em paz. Obrigada a todos.
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