Uma margarida feia que se destaca entre mil flores…

Eu tinha três para quatro anos. Havíamos mudado para a Rua das Camélias. Devido a pouca saúde de minha mãe, perdida por uma tremenda descalcificação durante o meu nascimento. Meus pais e meus tios compraram uma casa e fomos morar juntos: meus primos Rosa Maria, Marino, meus tios Emílio e Ofélia; meus pais e eu.

Com a mudança perdêramos nossa empregada. Logo nos primeiros dias meus primos e meus tios foram viajar, passando uma semana num Hotel Fazenda em São Carlos. Foi durante esse período que numa bela manhã tocou a campainha de casa. Minha mãe atendeu. Surge uma figura feminina, feia… Muito feia.

Óculos com lentes que de tão grossas pareciam fundo de garrafa, compensando a enorme miopia. Eu muito pequeno, estava atrás de minha mãe. Atendemos a e ela perguntou:
– "Estão precisando de empregada?" Mamãe respondeu que sim. – "Tem criança na casa?" Novamente minha mãe consentiu explicando que tinham três, quase com a certeza que a moça recusaria o emprego.

Margarida completou: – "Que bom, eu adoro crianças!" Para minha mãe foi um susto. Normalmente as empregadas davam preferência para casa sem crianças. Mamãe pediu que ela voltasse em três dias, quando meus tios já teriam voltado, pois como dividíamos a casa ela não poderia tomar uma decisão sem antes consultar minha tia. Depois de três dias, ela voltou e foi admitida.

Margarida era a empregada perfeita: lavava, passava, cozinhava e cuidava da gente como se fossemos seus filhos. Era órfã. Ao nascer em São Luiz do Paraitinga, fora abandonada pelos pais. Sempre brincalhona dizia que no parto o médico não sabia por que lado pega-la de tão feia que era. Cresceu e foi criada por freiras num orfanato em Caçapava, não tinha um parente.

Margarida foi quase uma mãe para mim e para meus primos. Como era pequeno, era ela quem me dava banho. Acordava-nos com um café da manhã levado em bandejas na cama (café com leite, pão com manteiga, bolachas com geléia e uma gemada com vinho do porto, batida a mão até que a gema ficasse branca). Minha mãe a repreendia dizendo que ela estava nos acostumando mal, e ela respondia que adorava fazer isso.

Era uma verdadeira “mestre-cuca”. Seus pastéis, de massa fininha e crocante, eram inesquecíveis. Aliás, organizava verdadeiros jantares em festas e aniversários. Adorava animais. Na época tínhamos um pequinês preto, o Chang, bravo feito uma fera. Mas a Margarida passou a ser a verdadeira dona dele. Eu a via como minha babá. Ela adorava os filmes do Mazzaropi e Oscarito e Grande Otelo.

Eu era sua companhia constante nas sessões cinematográficas. Quando havia matinês nos carnavais do Cine Estrela, margarida se divertia como minha acompanhante… E lá ia eu fantasiado de palhacinho, Peter Pan, Tirolês… E o fazia com o maior dos prazeres. Ela foi tão importante em minha vida, que com quatro anos, como comecei a desenhar cedo, fiz seu retrato. Ela mesma reconheceu e orgulhosa foi mostrar para minha mãe.

Lembro-me da Margarida cantarolando músicas sertanejas, como "Casinha Pequenina", "Luar do Sertão", "Beijinho Doce", "Catito" e tantas outras, que ouvia no rádio e as usava para passar o tempo durante seus afazeres. Com nove anos eu e meus pais nos mudamos para a Lapa. Margarida permaneceu com minha tia Ofélia na Vila Mariana. Ainda lembro dos seus olhos marejados de lágrimas no dia de nossa partida.

Mas mesmo após a mudança continuei freqüentando a casa de meus tios. E sempre que eu aparecia, lá estava ela me esperando com os pasteizinhos ou bolinhos de chuva que eu tanto gostava. Margarida permaneceu em nossa família por pouco mais de trinta anos. O tempo passou, eu cresci. Minha tia Ofélia faleceu. Logo em seguida Margarida adoeceu, um câncer terrível a dominou.

Como já era quase parente, cuidamos de sua internação no Sírio Libanês, onde aos 56 anos, dois anos depois da morte de minha tia, ela morreu. Minha mãe cuidou de seu enterro, e tratou de comprar uma gaveta após cinco anos de sua morte, para que seus restos fossem enterrados com dignidade no cemitério de Vila Formosa, onde permanece até hoje.

Neste momento ao me lembrar dos meus mais dourados anos, me vem à lembrança da ”feia-linda” Margarida, uma flor que Deus plantou em minha vida… e que sinto verdadeiro orgulho em homenageá-la com estas palavras. Deus a tenha em bom lugar, Margarida!

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