Lembranças Televisivas

Quando meu pai comprou o nosso primeiro televisor, deixei de ser televizinho nos apartamentos da Vera Moratta, no mesmo andar, e da Dona Josefa, no andar de baixo. A TV era ligada sempre às 18h, quando começavam as transmissões e a primeira atração era o Pullman Jr. no Canal 7, TV Record, tudo ao vivo. No estúdio da emissora, várias mesinhas com crianças que assistiam aos desenhos, degustando fatias de bolo acompanhadas por um saboroso milk-shake.

Era preciso fazer a inscrição com antecedência para participar. O Pica pau, o Andy Panda e o Reizinho faziam à alegria de todos. Às vezes passava um desenho que nunca saiu da minha memória. Quem se lembra do Pacífico da Paz, um pacato baixinho que resolveu comprar um chapéu e acabou levando, sem saber, o boné mágico, confeccionado com os cabelos de Sansão, que transmitia a força do personagem bíblico a quem o usasse?

Na história, um monstro de ferro com cara de Frankenstein, rapta uma indefesa mocinha e a amarra na linha férrea sobre um altíssimo viaduto. Quando o Pacífico vai salvá-la, ele consegue segurar dois trens ao mesmo tempo, vindos em sentidos opostos, lutando para permanecer com o boné na cabeça, que ameaçava cair. Nunca mais vi aquele desenho, mas certamente alguns aqui se lembrarão.

A seguir do Pullman Jr., vinha o Roy Rogers, caubói meio urbano sempre montado no seu cavalo Trigger e acompanhado da esposa Dale Evans e do inseparável Pat com o seu jipe. Houve um concurso que daria ao vencedor uma viagem aos Estados Unidos para visitar o rancho do famoso caubói. Era preciso juntar algumas embalagens dos produtos Pullman e trocá-las por um cupom na sede da Pão Americano S.A., que detinha a marca Pullman, na rua Augusta, próximo da Av. Paulista.

Nem é preciso dizer que eu já me imaginava lá no rancho do Roy Rogers, até o dia do sorteio, quando outro menino foi o felizardo. O segundo prêmio era um tal de "Auto-Miraculoso" um trambolho, meio carro, meio foguete, movido por um apito, cujo som fazia a geringonça mudar de direção. Provavelmente era um brinquedo importado. Nem esse prêmio tive o gostinho de levar. Afoguei toda a minha frustração comendo bolo Pullman, prêmio de consolação bem mais acessível.

Nem por isso deixei de participar de outros concursos, sempre com esperança de ganhar. A Colgate patrocinava a série Rin-Tin Tin e dava como prêmios um uniforme do Cabo Rusty ou um filhote de pastor alemão, um autêntico presente de grego para quem, como eu, morava em apartamento, onde animais não eram permitidos naqueles tempos. A Kolynos, por sua vez, patrocinava a série Lassie e o prêmio não poderia ser outro, um filhote de Collie.

Umas primas muito mentirosas, que moravam na mesma rua, juraram que tinham ouvido o meu nome no sorteio do pastor alemão. E a verdade é que eu jamais ganhei coisa alguma em todos os sorteios de que participei. Nem nos sorteios daquela época nem nos de hoje em dia.

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