Eu vendia lonas e encerados da Alpargatas na Rua Urussuí, lá no Itaim. As lonas verdes eram para serem usadas em estradas boas e asfaltadas. As cáquis para serem usadas em estradas de terra. O cáqui servia para disfarçar a sujeira da poeira. E 90% das estradas da Bolívia eram de terra, mas meu distribuidor boliviano só comprava a cor verde. Ele dizia que era uma preferência dos traficantes de droga que secavam coca no meio da floresta.
Os helicópteros do FBI sobrevoavam as áreas de secagem da coca, mas não conseguiam identificá-las por causa do verde das lonas que se misturavam com a vegetação. Eu vendia colchas de chinele Madrigal da Alpargatas e da Jolitex, todas de cores comuns. Um dia apareceram os Americanos, mas não queriam as colchas de chinele. Queriam roupões de chinele para vender no varejo a dois mil dólares cada. As cores eram sofisticadas e deslumbrantes.
Como nos tons, rosa, salmão, pêssego, verde água, gelo, azul claro, amarelo ouro desbotado. Depois vieram os australianos, os franceses e os suecos e estes tons passaram de trinta. Eu vendia tênis de futsal importados da China. Todo mundo em São Paulo queria a cor branca, a mais elegante. De repente, todo mundo passou a preferir na cor preta. O aluno usava o tênis para ir à escola e também para jogar futsal e o preto sujava menos.
Quando jovem, eu sempre usava calça jeans, azul índigo, e camiseta preta. Duas peças de vestuário e duas cores que nunca saíram da moda. Um dia, num centro espírita, o palestrante olhou para mim, enquanto falava para o público, e advertiu que muita gente se veste de preto e depois não sabe por que tem depressão. Eu levantei a mão e perguntei a ele se todas as pessoas da raça negra estavam condenadas a sofrer de depressão.
Na Alpargatas, eu vendia também assento e encosto de lonas para cadeira de diretor de cinema. Quem comprava era só os Americanos. As cores eram fortes e chamativas. Amarelo gema, verde bandeira, azul petróleo, vermelho tijolo e marrom. Em São Paulo sempre chove e a chuva não tem cor. Homem só pode usar guarda-chuva preto e mulher sombrinha de todas as cores. Antigamente, nas piscinas, os homens só podiam usar calção de banho preto, e as mulheres maiôs de qualquer cor.
Nos anos 90, usei muito jeans com t-shirt cor de rosa, mas as pessoas me olhavam torto. Certa vez, trouxe do Paquistão roupas de mulher, que são iguais às dos homens, exceto pela cor. Calças compridas e túnicas por cima que chegam até a canela. Para o homem tinham que ter cor única que podia ser branca, preta, bege, cinza ou cor de burro quando foge. Já para a mulher belas combinações de cores, por exemplo, calça bordô, túnica salmão e um longo lenço bordô que também pode ser usado como cachecol.
Marquei reunião com uma empresa na Avenida Paulista, fazendo-me passar por um mulçumano, trajando indumentária paquistanesa, mas com cores femininas. Todos me respeitaram e enalteceram minhas cores. As mulheres paulistanas se esmeram na escolha da cor da roupa íntima, mas não podem exibi-las em público, mas somente reservadamente ao namorado, amante, ou marido, mas, dependendo do lugar, ninguém vê ou se lembra de cor.
O Wikipédia diz que o branco da bandeira da cidade de São Paulo simboliza a paz, a pureza, a temperança, a verdade, a franqueza, a integridade, a amizade e a síntese das raças e que o vermelho da Cruz da Ordem de Cristo simboliza a audácia, a coragem, o valor, a galhardia, a generosidade e a honra. Durante a ditadura militar em São Paulo quem usava camisa vermelha era comunista.
Quem se vestia todo de branco, era pai de santo se fosse negro, e médico se fosse branco. Um padre ou uma freira pode se vestir de preto, mas um cidadão comum pode ser confundido com um agente funerário e uma cidadã comum está de luto. E tem mais histórias sobre cores…
E-mail do autor: [email protected]