Contar histórias tem se tornado para mim, no momento, um prazer sem igual, isto porque consigo dividir com quem quiser momentos ou memórias agradáveis. Quero dividir com vocês parte da minha infância, onde com criatividade aproveitei o direito de ser criança, sem se preocupar se o meu tênis era o da hora, se tinha uma coleção de bonecas, ou se a minha roupa era igual a de algum grupo musical.
Aliás, durante meu período de faz de conta de ser mamãe, tive duas "filhas" boneca, a Cidinha, ganhei de minha mãe no dia das crianças e que guardo até hoje como uma amostra viva de que éramos muito felizes. Lembro que era um modelo especial, pois fechava os olhos quando eu a colocava na posição horizontal, deitada. Tinha vasta cabeleira loira, que minha mãe aconselhava que não molhasse para não embaraçar, mas o restante deveria ser lavado com espuma de sabonete, assim conservaria a boneca sempre com ar de nova.
Posso dizer que a receita deu certo. A outra boneca era um grande bebê, batizado de Eduardinho, que ganhei no natal que precedeu ao nascimento de minha irmã caçula Eliane. Carinhosamente minha mãe confeccionou e bordou um belo enxoval para ele. Outra alegria que tive enquanto criança era ter tempo para brincar na calçada em frente ao prédio que morava. Andar de bicicleta com minha melhor amiga, ir para a escola a pé que por sinal nos horários em que íamos e voltávamos da escola muitas outras crianças também faziam o mesmo trajeto e assim formávamos um batalhão uniformizado.
Aos domingos pela manhã a missa era habitual e as matines da tarde no pequeno cinema no porão da igreja Santa Rosa de Lima, nas Perdizes completava nossa agenda dominical. Meus pais, apesar das necessidades da época, quando podiam, levavam a mim e meu irmão, a pé da Rua Iperoig, onde morávamos até o Parque da Água Branca. Meus pais ainda jovens de braços dados como namorados e entretidos em longos papos nos proporcionavam uma tarde sem igual.
Este hábito de passearem ao cair da tarde de braços dados entrosados em conversas diversas foram repetidas até pouco antes de minha mãe partir, a diferença é que em vez dos filhos eram os netos que os acompanhavam. Outra diversão gostosa e já morando no bairro de Santo Amaro, foram os campeonatos de amarelinha que disputávamos, entre eu, minha irmã Neuza e meu irmão João Carlos. Lembro que a proeza maior era encontrar objeto adequado para jogarmos certeiros nos quadrados da amarelinha, riscada e mantida em cimento áspero do quintal.
Depois de algumas amostras a casca de banana foi a melhor tática, pois com o uso, adquiria peso e aderência ótima para o campeonato. Outro torneio era o andar sobre latas. A confecção consistia em furarmos o fundo de duas latas de leite em pó e introduzir um grosso barbante pelos furos e estava pronta a engenhoca, e ai era só subir nas latas e segurar os cordões entre os dedos dos pés e andar pelo quintal e ver quem conseguia fazer o maior percurso sem cair das latas.
Alternávamos as brincadeiras de amarelinha enquanto a minha irmã caçula dormia, e o das latas quando acordada. Ordens de minha mãe. Outro dia passando por uma famosa loja de brinquedos vi uma pequena embalagem confeccionada em pano colorido, alguns saquinhos de areia. O preço era alto e a vendedora tentava me explica pedagogicamente o uso das trouxinhas, enquanto isso minha memória correu solta em outra época onde não precisava de explicações técnicas para aproveitar a minha infância livre e de forma criativa.
E-mail do autor: [email protected]