Confesso que comecei a gostar de comer pastel de feira quando comecei a namorar o Nelson. Antes depressiva e achando que a vida era meio esquisita para ser vivida alegremente, não comia e pronto. Cheguei a desmaiar duas vezes por falta de comida.
Inconscientemente eu me recusava a viver com entusiasmo. Triste, me reservava, não me cuidava e pouco comia. Com o tempo fui descobrindo as coisas boas da vida, as festas, a alegria do abraço e das boas conversas, das pequenas viagens nos finais de semana, a alegria de um bom piquenique, com direito a bolo de cenoura coberto com chocolate no final do evento.
Conheci também a magia do pastel de feira. Algumas vezes a minha mãe comprava na feira do Cambuci e fritava-os em casa, mas eu aprendi mesmo a comprar o pastel com o Nelson nas feiras da Vila Sônia. Sempre ali na banca do japonês, é claro. Afinal, sempre tem um japonês à vista, sobretudo na Vila Sônia, que tem uma rua chamada "Rua do Imigrante Japonês" e eu acho isso fantástico.
Uma homenagem ao homem sofrido, do trabalho, que atravessou o mundo para chegar a São Paulo, carregando angústia, sonhos e tantas ilusões.
Sempre havia um cúmplice silêncio ma barraca do pastel do japonês, quer dizer, o silêncio possível numa cidade desse porte. Com freqüência, o pastel de queijo chegava à nossa casa, mas sempre com algo especial no ar, algo indecifrável.
Logo o nosso filho se acostumou à iguaria e, muitas vezes, eu ia cedo cutucá-lo na cama, convidando-o para o especialíssimo passeio à feira e ele, sonolento, resmungava, "manhê, me traz um pastel de frango com catupiry" da barraca do japonês. Podia ser de qualquer barraca, desde que fosse de algum japonês.
O pacotinho chegava em casa com um cheiro característico e levemente engordurado. Era aberto também em silêncio e o mesmo ia bem com refrigerante, suco, café ou mesmo sozinho. E o rolinho de pastel para se levar para casa era o máximo! Ficava guardado na geladeira até chegar um sábado à noite, e, na falta da pizza, ele era a grande solução. Aquela mussarela derretida dentro da massa era sinal de caminho do paraíso.
Hoje os sabores são variados. Tem pastel até de carne seca. E tem que ser generoso, daqueles da pastelaria do Beiçola, da Grande Família.
Segundo a lenda, alguns pasteleiros japoneses fritavam pastel na parte baixa da casa da minha sogra há aproximadamente 40 anos, sempre aos domingos. Eles não poderiam fazer a fritura na feira e então teriam que arrumar um lugar alternativo. Pagavam o espaço a pastel e o Nelson e seus irmãos, quando criança, se fartavam.
Isso na mesma casa, onde antes um vizinho projetava filmes no muro e a vizinhança se sentava nos banquinhos improvisados para se encantar com a atração.
E-mail do autor: [email protected]