Dia em que o metrô foi inaugurado

Cheguei a São Paulo em 1974, no dia em que o metrô foi inaugurado. Naquele mês de setembro todos viajaram de graça nos trens do Metropolitano que estava, afinal, se apresentando como grande novidade.<br><br>Nos intervalos entre uma agência de emprego e outra, eu que morava numa "pensão para rapazes de fino trato" na quase extinta Rua Asdrúbal Nascimento, rua de duas quadras na Bela Vista. Procurava passear de metrô para conhecer a cidade. <br><br>É risível, mas passado o impacto das três primeiras viagens, percebi que, na verdade, não conheceria quase nada de São Paulo se continuasse enfiado nos túneis do metrô. A não ser pouca coisa dos bairros da Zona Norte por conta das pontes Armênia, Carandiru, Tietê, e Santana, onde os trens circulavam sobre trilhos "aéreos". <br><br>Quando Jânio Quadros assumiu a prefeitura de São Paulo em 1986 tratou de encetar algumas obras que devolveriam à cidade seus marcos históricos. Assim, em 1989 vi o casarão da Rua Asdrúbal Nascimento vir abaixo juntamente com todo o casario daquela via e parte da rua de cima, a Jandaia. <br><br>Removidos os escombros surgiram os "Arcos da Bela Vista" que sustentam a Rua Jandaia e podem ser apreciados por quem passa pelo início da Avenida 23 de Maio. Da minha pensãozinha ficou só a saudade… <br><br>Arrumei emprego e mudei para o Pari, mas deixei uma parte do coração no Bexiga. Em que pesem as arquiteturas diferentes, as cadeiras nas calçadas nos fins de tarde em muito lembravam a minha terra querida: Santa Rita do Passa Quatro, São Paulo. Além do mais, todos nós que vínhamos do interior em busca de uma chance na capital, acabávamos morando sempre na região central pelas facilidades que oferecia. <br><br>Para bancar a condução do primeiro mês de emprego tive que vender uma camisa que eu gostava e tinha sido presente de Dona Rosa, minha saudosa mãe. Um colega de pensão comprou-a. O que me quebrou um galhão. <br><br>Imaginem todo dia o cidadão sair da Bela Vista e ir a pé até a Avenida do Emissário, hoje Marquês de São Vicente, na Barra Funda e voltar no cair da noite. Eu fazia, caminhava tudo aquilo. Com o recebimento do primeiro salário da Telesp, hoje Telefônica, a coisa se equilibrou. <br><br>Fiquei encantado com o meu novo bairro, o Pari. Ali tudo era provinciano. Tinha ares de cidade grande, mas jeitão de interior. Moramos, minha tia e eu, numa das muitas vilas residenciais construídas por portugueses e italianos. Próximo ao estádio da Portuguesa. O Pari, o Brás e a Mooca ainda conservam muitas de suas vilas. <br><br>Às vezes, quando me bate a saudade do meu rincão interiorano, saio do Horto Florestal e vou até o Brás e o Pari. Preferencialmente aos domingos, quando as lojas fecham e ressurge aquele arzinho provinciano tristemente em extinção…<br><br>E-mail do autor: [email protected]