Lá íamos nós, eu e minha avó me levando pela mão, subindo o recém inaugurado viaduto que ligava a Av. Rudge com os Campos Elísios.<br>Subíamos devagar, calmamente olhando os bondes que ainda subiam pelo viaduto em direção ao Largo Santa Ifigênia e os poucos chevrolets e fords e mercurys e studebacker´s que passavam. <br><br>Estranhava, pois só via carros na cor preta. Quando muito azul escuro. Subindo o viaduto, eu ia olhando do lado esquerdo as construções do moinho que existia com seus silos, hoje ainda restam algumas ruínas deles, e passarelas suspensas por onde corriam pequenos vagões transportando a farinha de trigo que produziam.<br><br>No fim do viaduto, virávamos a esquerda e logo à direita na Alameda Dino Bueno, e parávamos diante de um alto portão de ferro verde, que só abria pontualmente as 13h00. Horário de nossa entrada naquele pequeno mundo tão diferente do mundo lá fora. <br><br>Quando entravam todos os alunos o grande portão era fechado com um estrondo forte e lembro que as freiras, pois era um colégio de freiras, falavam para as mães aflitas irem embora e deixarem seus filhos aos cuidados delas.<br><br>Lá dentro todo em silêncio absoluto em fila indiana, e ao comando da irmã professora, andávamos todos em direção a capela para o primeiro ato do dia: rezar. A capela era em forma de gruta, parecia mais uma caverna com pouquíssima iluminação, ambiente fantasmagórico aonde aos poucos íamos ouvindo os murmúrios das rezas, Pai Nosso, Ave Maria, Salve Rainha.<br><br>Ao final íamos, ainda em silêncio, todos em fila indiana para a sala de aula. Sentávamos numa quietude que dava para ouvir as formigas andando e assim ficávamos até a entrada da irmã professora daquele dia. Quando ela entrava ficávamos em pé aguardando sua ordem para sentar e pegar o caderno e começar uma nova aula. <br><br>No final do dia o imenso portão se abria e víamos as mães ansiosas pegarem seus filhos. Eu aflito olhava para ver quem vinha me buscar naquele dia. Sempre era minha avó, mas às vezes era minha Mãe ou minha Tia. <br><br>Ao voltarmos para casa ia contando tudo o que tinha aprendido naquele dia. A cartilha que usávamos chamava-se “Caminho Suave” e mostrava na capa, duas crianças andando por uma estrada simples e calma. <br><br>Eu me via naquela capa e era feliz. Minha avó no céu talvez também se lembre de mim e daqueles dias.<br><br><br>E-mail do autor: [email protected]