Vila Nova Conceição e a casa do meu avô

Deparei-me com uma gaveta enorme e pesada de um móvel que foi um dia uma camiseira. Dentro da mesma havia um “baú do tesouro”. Lá havia um pouco mais de uma dúzia de fotos antigas amareladas. Pareciam falar de um momento congelado no tempo e espaço de mais de meio século.
Como extrair da fotografia a concepção histórica?

Agrupei-as com estes "heróis" que um dia conheci por afinidades familiares, indo recolher alguma "arqueologia" daquele momento.
Sempre escutei algumas "lorotas", como se dizia, a parentela reunida. Mas possuía uma dificuldade enorme em saber quem era tio, sobrinho, madrinha, os quais no entusiasmo das mais alegres conversas ruidosas e gargalhadas de alguém no auge do burburinho. Comentavam o crescimento do Bairro da Vila Nova Conceição.

Este crescimento revelava-se na demografia, pela vinda do imigrante e ainda pelas correrias repentinas das parteiras mais famosas do lugar, Dna. Benedita e Dna. Sebastiana, que estavam sempre preparadas para o socorro de futuras mães aflitivas na hora do parto. As condições médicas não tinham a qualidade hospitalar da atualidade, pois o custo de uma maternidade era coisa dispendiosa, não havendo como cada família operária arcar com o custeio da mesma.

Morávamos na chácara de meu avô, terras de arrendamento, pois nunca usufruiu de áreas devolutas, nunca foi grileiro profissional. Localizava-se na esquina da Rua Jacques Felix com a Rua Baltazar da Veiga. Era considerado um local "adiantado", tendo o "Grupo Escolar Martim Francisco", depois Escola Estadual, onde estudei mais tarde, na esquina das ruas Jacques Félix com Domingos Fernandes, local da Igreja São Dimas, aonde meu pai Ernesto, vindo de Taquaritinga, interior paulista, fixou "morada". Colaborador na construção da paróquia atual, rodeada por amplos terrenos.

Outro grande terreno com frente para a Avenida Santo Amaro pertencia ao CNI, Confederação Nacional da Indústria, que abrigou por algum tempo o campo de futebol nas redondezas. Do lado oposto ao CNI localizava-se a farmácia do Sr. Barros, homem conceituado, que nas palavras dos antigos era "quase médico". Prescrevendo receituário próprio indicando remédios e formulações da prática para pacientes assíduos que acatavam o diagnóstico aplicado na vivência farmacêutica.

A prática médica aplicada pelo "doutor farmacêutico", corriqueira ainda em várias localidades, estava sendo questionada por dois jovens recém formados, Renato Fairbanks e Alceu de Campos que resolveram estabelecer consultório na Estrada de Santo Amaro, importante ligação de municípios. Doutor Renato mudou-se para a Rua Jacques Félix, próximo a residência de meus padrinhos, Moema e Antonio Luz.

O doutor Alceu fixou-se na Rua Bueno Brandão, a antiga Rua Ressaca, próximo a outro arrendamento feito por meu avô, Manuel dos Santos, para cultivar rosas. Hoje um posto de gasolina. Em 1938 os dois jovens médicos idealistas aumentavam sua clientela, e assim resolveram concretizar o sonho dos tempos acadêmicos: montaram a "Policlínica Vila Nova", estrutura com leitos para cirurgias simples com condições para internações.

Quando criança, por estripulias da idade, virei um bule dentro do suporte que segurava o saco de linho onde se colocava o pó de café. Isso tudo tombou fervente do meu lado, sendo internado as pressas na ala infantil. Especialidade que foi mantida no "Hospital São Luiz Beltran", idealizado como "Beneficência Médica Brasileira". Respeitando as devidas proporções, nos moldes das beneficências "estrangeiras" que atendiam imigrantes, como por exemplo, o hospital Humberto Primo (1º), ou Matarazzo na época referência médica da América Latina.

A dupla de médicos recebeu ainda reforço do Dr. Paulo Gomes Carneiro, que completava uma administração eficiente instituindo a formação de enfermagem com treinamento especializado. A "Escola de Enfermagem" era um corpo técnico preparado por médicos brasileiros, estando localizada em residência da Rua Amélia, atual Dr. Alceu de Campos Rodrigues. Assim a "Polyclínica Villa Nova" passou à nova razão social com a denominação "Hospital São Luiz Beltran", na atualidade "Hospital e Maternidade São Luiz".

O Pronto Socorro ficava em frente à Avenida Santo Amaro, nº 734. Com esse profissionalismo e crescimento da região surgia o "Hospital São Luiz Sociedade Anônima", formado por médicos autênticos, não por investidores financeiros da atualidade, que não se preocupam com a medicina, mas com os rendimentos que a mesma oferece pelo lucro imediato.

Em 1936 a Cidade de São Paulo foi sobrevoada pela mais avançada tecnologia alemã em dirigíveis: o Zeppelin estava sendo apresentado na América. Foi um acontecimento que causou tumulto no cotidiano, que por muito tempo tornou-se comentário corriqueiro na cidade. Era início da modernidade.

O meu avô era homem enraizado na terra, tirava o sustento dela. Era agricultor e possuía sua própria plantação de hortaliças, legumes e frutas, não sabia o que era agrotóxico, não conheceu “super” ou “hiper” mercado. Homem alegre até na tristeza. Meu avô já não "cabia" mais no bairro. Um dia resolveu promover uma festa com direito a grande "fuzarca" dançante para derrubar sua casa de madeira, pois o "progresso" estava chegando, os bárbaros invadiam a "Villa" de seus sonhos.

Convidou toda a "moçada", termo hoje ofensivo aos varões, que chegavam vindos das redondezas próximas e também do Itaim Bibi, onde seu cunhado, Joaquim de Monteiro Amaro possuía também uma chácara na Iguatemi. Subiam a "sobrinhada" por parte dos Amaros. O Zeca, Jaime, Lúcio, Paulo, Antônio e a única irmã deles, Iracema.

Por parte da Doceira Paulista, situada na Rua Augusta, 2995, comandada pelo "seu" Hermínio, "seu" Fernandes e "seu" Campos, com a colaboração da família Amaro, grandes doceiros, vieram várias amigas, entre as quais Zélia, Isaura, Chiquita, Helena, Meire, Lourdes Sola, e tantos outros que o tempo insiste combater teimosamente a mente. Não recordando, apesar do esforço dos depoentes.

Da família estavam meus tios Ivo e Odete, e minha mãe Elza, contanto com a cozinheira importante do "evento", a Ti-Maria, minha avó. O rega-bofe seria completado com "barril" de chope de "madeira", financiado pelos "gajos abrutalhados", no auge da juventude, para a empreitada do desmanche.

A casa foi ao chão depois de uma madrugada de arrasta pés, com a poeira subindo do assoalho, e deste modo a "nossa casa, nossa vida" foi demolida. Não fazíamos mais parte daquele espaço da cidade, não havia lugar para a taipa ou a madeira, a cidade agora era do concreto.

Tomamos o rumo da principal via local. A Estrada de Santo Amaro, de terra batida, ligação de duas localidades importantes: a da Cidade de São Paulo e da antiga Cidade de Santo Amaro, que fora incorporada como bairro após 1935. Local da construção da Represa de Guarapiranga, que no "futuro" deveria ser implantada uma estação balneária e para onde se deslocavam em direção a "Interlagos" e que havia sido construído o bairro "entre as represas". Sendo a Billings, segunda geradora de energia de São Paulo.

Atravessamos o lado oposto do Rio Pinheiros, para fazer "minha casa, minha vida" no Bairro Jardim São Luiz. O hospital, mais tarde, veio atrás e migrou para o Morumbi, na Avenida Giovanni Gronchi.

Foi assim que descobri que as fotos falam!

E-mail do autor: [email protected]