Desde criança sempre gostei de ouvir os adultos contarem seus causos, pois tive o privilegio de descender de dois grupos, tanto paterno como materno de verdadeiros contadores de historias. Por parte de meu pai os fatos ocorreram em cidade próxima – São José do Rio Preto, a cerca de 450 km de Santo Amaro, antigo município de São Paulo, na época do nascimento de minha mãe.
Hoje sou moradora desse bairro, tive os meus filhos todos aqui, assim a minha saga continua santamarense, apesar de ter nascido em Santos.
Gostava de conhecer os locais que minha mãe ou tios contavam ter passado sua infância e juventude, ocorridos numa Santo Amaro com ruas de chão batido ou de paralelepípedos onde hoje corre transito intenso.
Famílias que se conheciam pelo nome e sobrenome. Janelas e portas abertas para quem quer que chegasse e fosse logo incorporado ao papo longo e lento das conversas organizadas, sem aviso prévio nas calçadas que hoje mal dá para transita-las sem se esbarrar agressivamente entre estranhos que ao menor movimento se apertam as suas bolsas ou pacotes com receio de violência eminente.
Hoje quando apressadamente passo ao lado do jardim gradeado da Praça Floriano Peixoto, tento numa fração de segundos imagina-lo sem tal proteção, aberto a todos num convite a passearem pelas estreitas alamedas enfeitadas de flores coloridas e bancos, alguns encobertos com caramanchões a protegerem os namorados ingênuos sobre a supervisão da criançada nas algazarras do bate-lata, esconde esconde, jogos com bolinhas de gude ou alinhando pipas coloridas pelo céu.
Sacos de pipoca, amendoim salgado e quiçá algodão doce eram guloseimas prediletas e o que dizer dos picolés caseiros que ganhavam de longe dos industriais de hoje. Bandeirinhas de papel de seda, coloridos recortados pela comunidade santamarense a enfeitar com esmero a hoje tímida e esquecida igreja matriz que sofre com o desrespeito de barraquinhas a vender miudezas para uma clientela desconhecida.
É realmente tive o privilegio de poder ter ouvido os causos de um tempo que não volta mais.
E-mail do autor: [email protected]