A tia fora contra sua ida ao centro da cidade para consultar um dentista. Ponderara- "não posso concordar, por ali é um assalto a cada meia hora". Teimosa, afirmara ser o dentista um excelente profissional, formado pela USP e depois, nunca aceitaria ter que cancelar uma ida ao centro por medo:<br><br>- "medo de gente?" Que absurdo!<br><br>Quando estava guardando as jóias que usava na caixinha, a tia começou a falar de uma história de brincos roubados e arrancados junto com pedaços de orelhas e de dedos cortados e levados junto com os anéis, tudo na esperança de fazê-la desistir da consulta. Num deboche resolveu deixar os brincos nas orelhas e apostou que voltaria com eles, com as orelhas inteiras, devidamente coladas.<br><br>Deixou o carro em uma estação do metrô, no próprio bairro, e seguiu destino Estação Sé, Praça da Sé. Desembarcou pelas escadas rolantes, cruzou a praça e entrou na Rua Direita. Sentiu saudade da mãe, distante anos-luz do hoje, que Costumavam vir juntas ao centro, faziam compras e terminavam o passeio comendo misto quente nas Lojas Americanas. <br><br>As ruas centrais eram repletas de senhoras e de crianças. As normalistas, da Caetano de Campos, passavam em grupos, deixando atrás de si o eco de seus risos argentinos. Na Barão, mulheres elegantes e homens de terno e gravata tomavam chá no terceiro andar do Mappin, ao som de violinos.<br><br>Os homens cavalheiros como então se diziam, vinham para o centro de terno, gravata, chapéu e sapatos engraxados. As mulheres, de bolsas, luvas e meias de nylon. As crianças, limpinhas, vestidos armados, fita nos cabelos. Estudantes, todos uniformizados, material junto ao peito, gravatinhas balançando ao vento…<br><br>Um colchão, estendido bem no meio da Rua Direita, interrompeu o curso dos pensamentos. Havia alguém deitado nele, cercado de curiosos. Uma tabuleta de madeira estava levantada e o cartaz nela colado explicava: -"fui estuprada, levei quarenta e duas…". Incrédula, achou que essa não dava mesmo para engolir! Quis mudar de calçada, mas uma movimentação repentina fez com que se voltasse…<br><br>Três guardas cinzentos revistavam dois pequenos engraxates. Uma senhora, pálida, descontrolada, gesticulava muito, tentando fazer-se entender e apontava para o pulso, a manga erguida e uma mancha branca no lugar que indicava. Uma nuvem escura cobriu parcialmente o sol e a tarde foi se apagando lentamente. <br><br>Todo o lado esquerdo da Rua Direita ficou repentinamente sombrio e o MAC DONALD,S estranhamente iluminado pelo que restou do sol, parecia estar colocado naquela rua por um equívoco maior.<br><br>Um dos meninos, franzino, aparentava oito anos que poderiam ser dez, onze ou até doze, dependendo de quanta fome tivesse dentro de si, pois este menino foi erguido por um dos guardas feito um boneco esfarrapado. E um relógio de plástico, cor de abóbora, ordinário foi arrancado de dentro do seu calção e exposto em triunfo para a multidão que se formara em volta dos guardas, da senhora e dos meninos. <br><br>O ar estava parado e a rua silenciou no momento em que o guarda devolveu o relógio e abaixou o menino. Ela recuou e encostou-se na porta de um bar onde havia um carrinho de doces. O rapaz, de uma loja de calçados ao lado do bar abaixou a porta de ferro com estrondo e a farmácia e as lojas do outro lado da rua foram fechando as portas. <br><br>Isolado, o doceiro tentou proteger os doces usando o próprio corpo. Eram vários corações de abóbora de batata-doce, arrumados ao lado de cocadas, paçocas e pedaços de rapadura. Espantada, uma abelha voou para longe, alguém gritou, "leva pra FEBEM, são trombadinhas".<br> <br>Como que despertada a multidão passou a vociferar palavrões. Atordoada, o coração disparado cruzou o olhar com o do menino acuado. Envergonhada, confusa, tentou um tímido aparte, "deixe o menino ir, devolveu o relógio, está em pânico…". Furiosa, uma mulher ao seu lado, gritou, "não solta não, eles voltam a roubar logo ali adiante…" Preso em uma chave de braço, o menino agora se debatia tentando escapar. O outro firmemente seguro pelo segundo guarda tentava também escapulir. Um terceiro guarda, o que segurava as caixas de engraxate aguardava a viatura chegar.<br><br>Pareceu que chovia, mas, ao levantar os olhos viu que era água, jogada em sacos plásticos dos prédios, por moças e rapazes que deviam ser escriturários, junto com uma estridente vaia, acompanhada de sonoros e cabeludos palavrões.<br> <br>- Largue o menino, seu bicha! – gritou um molecote e ato contínuo o guarda que segurava as caixas de engraxar jogou-as de encontro à parede e saiu ao encalço do molecote que foi fazendo um zigue zague com o guarda em seus calcanhares. Ouviu-se uma sirene, houve um início de tumulto, uma viatura tentava entrar, as pessoas correram, atropelaram e derrubaram o carrinho de doces da calçada. Corações de abóbora e de batata-doce, de quinta categoria, começaram a rolar em todas as direções, molhados e arrebentados.<br><br>Cocadas despedaçadas, paçocas e rapaduras pisoteadas, tumulto, coro de vozes, vindas não se sabia mais de onde, gritavam, "bichas, bichas, bichas!". Assustada correu também e safou-se por uma ruela. <br><br>Depois da consulta resolveu voltar ao local do tumulto. Estava vazio e o doceiro, agachado na calçada, tentava ajeitar e recolher os corações que se lascaram. Limpava, disfarçava e os colocava de volta no lugar de sempre. Interpelou-o delicadamente, "moço, o senhor poderia me contar como foi que acabou o caso dos meninos? Sabe me dizer se foram para a FEBEM?"<br><br>- A senhora é jornalista? Não sei de nada, não. Não vi nada, não. Que mania esse povo tem de querer complicar a vida da gente! Virando-lhe as costas continuou ajeitando os corações, resmungando uma porção de palavras ininteligíveis. Ao afastar-se dali, ela pisou sem querer em um coração que se espatifou aos seus pés.<br><br>Na Praça da Sé um pé de vento sacudiu uma árvore. Indiferente, a árvore deixou que lhe levasse a folha. Parecia não acreditar no retorno da primavera!<br><br> <br><br>E-mail do autor: [email protected]<br>