Uma igrejinha ao cair da tarde

Foi numa tarde. E de outono, ou de inverno, mas com sol. Era recém chegado a São Paulo, e fui morar na casa de minha tia Maria José na Barra Funda. Isto enquanto esperava que minha mãe e irmão também viessem e achássemos um apartamento.

Pois nessa tarde minha tia me convidou a acompanhá-la a uma missa, na igreja do Divino Espírito Santo. Não era noviço, mas novato, em igrejas e missas em São Paulo, mas foi mesmo inesquecível. Não a missa — dela mesmo nada lembro. Mas sim o cenário, com que me deparei após descer na Av. Paulista, percorrendo a Frei Caneca.

O Sol começava cair no horizonte, e iluminava tudo com luz suave e dourada. Passamos pela esquina da Antonio Carlos, e o ambiente era cada vez mais mágico. Aquela luz fantástica, de viés, a paz e o silencio que tomavam aquelas ruas de então… subimos a escadaria da igrejinha, que fica como num escarpado posto de sentinela, vigiando a descida da rua — e a cidade banhada de luz ao fundo.

Como disse, a igreja é mesmo muito pequena e acolhedora. Aquela tranqüilidade, a luz crepuscular, foram cada vez mais me contaminando, no seu átrio —pois acho que estava cheia e nem cheguei a entrar. Para melhorar ainda mais as coisas, uma bela garota me olhava de soslaio, mas nos meus quinze anos eu era muito tímido ainda para arriscar uma paquera.

Estava tão enlevado que nem lembro onde fora parar minha tia. Nem faço idéia. Dirigi-me para a balaustrada da igreja, em estilo gótico, e daqueles terraços a cidade era uma visão maravilhosa… O Sol de inverno refletia-se nas fachadas como em degraus de ouro, descendo cada vez mais para a tranqüila região central, imersa em sombras.

Poderia até dizer que, se Deus existe, estava presente naquele momento. Não sou religioso, e há muito não vou a essa igrejinha, agora cercada por altas grades. Então não sei se ainda se fazem momentos mágicos, como o dessa tarde, perdida há muitos anos no tempo.

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