Benedeto sotaque paulistano

Depois de muitos anos de cogitação e preparo, no início do outono de 2009 realizei um velho sonho. Eu e minha mulher estávamos a bordo de um navio cujo cruzeiro teve início em Santos com destino a Savona na Itália, realizando nove paradas no percurso de 18 dias.<br><br>Como se trata de final de temporada no Brasil, o navio recebeu grande número de passageiros europeus que vieram de avião, aproveitaram o final de verão brasileiro por alguns dias, e, estão de retorno ao velho mundo gozando do conforto de um grande hotel flutuante.<br><br>Dos 2895 passageiros a bordo, as grandes "colônias" são: brasileiros, alemães, franceses, italianos e hispânicos; logo, a linguagem na embarcação é bem diversificada e as comunicações oficiais passam obrigatoriamente por esses vários idiomas, e, mais o inglês. Pobres marujos comunicadores!<br><br>O que era agressivo nos primeiros dias vai tornando-se familiar e já dá para entender muito do que os franceses falam, graças à raiz latina da língua e às aulas do meu longínquo curso ginasial concluído na década de cinqüenta na Escola Técnica de Comércio Olavo Bilac na Lapa. O italiano, idioma oficial do navio, foi bem assimilado por mim desde o início, o que não é nenhuma grande vantagem para quem na infância ouvia regularmente, todos os domingos, os parentes de sua querida Nona falarem e cantarem as coisas da bela península.<br><br>Os hispânicos, incluindo-se o grande número de tripulantes, na realidade falam a nossa língua com pronúncia diferenciada; basta prestar a atenção e pedir para que seu interlocutor fale calmamente, pois muitas palavras são idênticas ao português. O inglês, mercê o conhecimento básico que a vida moderna nos impõe, dá para o gasto, e, consigo ler noventa por cento dos avisos e documentos além de conseguir comunicar-me com passageiros e tripulantes.<br><br>O alemão, bem, este é um caso à parte. O grande número de passageiros de língua germânica só conversam entre eles, a maioria integrantes da chamada terceira idade, sempre irritadiços, brigando por posicionamento de cadeiras ou esteiras no convés, lugares nos bares, no teatro, enfim sempre estressados. Seria o caso de se pensar que o próprio isolamento que o idioma impõe seja o responsável pelo defeituoso comportamento social? Isto eu não sei, mas, esta realidade eu observei ao vivo no cruzeiro.<br><br>Face as minhas observações passei a meditar sobre minha infância e juventude na nossa querida e cosmopolita São Paulo, onde os vários idiomas que obtigatoriamente ouvíamos, foram lapidando nosso sotaque,agregando palavras ao nosso vocabulário e condicionando nosso cérebro para melhor compreensão das línguas latinas.<br><br>Graças a Deus nasci e sempre vivi em São Paulo. Não tenho problemas para comunicar-me com metade do mundo. Obrigado querida SAMPA.<br><br>E-mail do autor: [email protected]