No Cine Marabá: comprei ingresso para ver televisão

Renasce uma das grandes casas de espetáculo, localizada no centro da Capital. Um dos pontos de destaque da chamada Cinelândia, onde se concentravam os grandes cinemas: Metro, Ipiranga, República e entre eles já se destacava o Marabá, localizado ali na Av. Ipiranga, entre a São João e a Praça da República.

Na época, ir ao cinema era como participar de uma festa; as mulheres iam bem vestidas; os homens, de terno e gravata.

Anos 50, 60. Época áurea do cinema. As grandes produções americanas: Bem Hur, Os Dez Mandamentos, Cleópatra; o cinema italiano com seus filmes realistas de pós guerra. Aqui no Brasil, a Atlântida, com Oscarito, Grande Otelo, depois a Cia. Vera Cruz.

Mas, o que me leva a escrever sobre o Cine Marabá está centrado sobre um outro prisma. Ano de 1954. O país, politicamente, passava por momentos turbulentos.
Getúlio Vargas era o presidente da República e vinha sendo alvo de uma campanha agressiva pela oposição, representada pelo partido político União Democrática Nacional – UDN; campanha essa liderada por Carlos Lacerda, jornalista, político, grande orador. Fazia oposição ao governo de Vargas.

Em 1954, já havia a televisão, mas os aparelhos eram em número reduzido. Poucos tinham condições de usufruir desse meio de comunicação. No mês de agosto, a campanha contra o governo de Vargas se intensificou. Lacerda era o porta-voz dessa campanha e em 5 de agosto, sofreu um atentado, perpetrado por elementos da guarda pessoal do presidente, comandada por Gregório Fortunato. Nesse atentado, o major da Aeronáutica, Rubens Vaz (amigo de Lacerda) foi atingido mortalmente.

A televisão Tupi ia entrevistar Lacerda. Aqui é que entra o Cine Marabá. Na sala de espera do cinema havia um aparelho de televisão que os expectadores ficavam vendo, enquanto aguardavam o início de uma nova sessão. Mas, nessa noite, os expectadores lotaram a sala de espera para ver e ouvir o que o político Carlos Lacerda ia falar sobre os últimos lances da política contra o presidente Vargas. As pessoas compravam o ingresso não para assistir ao filme programado, mas para ver o grande orador. Eu confesso: fui um desses "expectadores".

Enquanto Lacerda se apresentava na televisão, a sala onde estava sendo exibido o filme programado permanecia completamente vazia; já a sala de espera, lotada. Ali as discussões entre os freqüentadores eram acirradas, pois as opiniões estavam divididas e ali se concentravam adeptos tanto de Lacerda como de Vargas.

Com certeza, a presença de Lacerda naquele programa de televisão foi a gota d´água que transbordou no ato fatídico do suicídio do presidente Vargas, que ocorreu a 24 de agosto.

Essa é uma passagem ocorrida em 1954, que me marcou, relembrando o Cine Marabá que, agora, 55 anos passados, está resgatando a memória de muitas gerações que tiveram a grata satisfação de desfrutar daqueles momentos de lazer que essa casa de espetáculo nos proporcionou. Bem-vindo, Cine Marabá.

Ah !!! estava me esquecendo. Para complementar aquela noite, cruzei a avenida e fui até a Salada Paulista e saboreie um prato de batatas com salsicha, depois passei no Bar do Geca, tomei um chope, esperei pelo bonde "Camarão" e fui para casa dormir. Isso já era por volta da meia-noite. Dois dias depois, Getúlio cometeu aquele gesto extremo.

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