Suco de melancia

Eu sempre gostei de buscar coisas novas. Quando garota, achava que tudo deveria acontecer sempre. Era insuportável a mesmice, os mesmos gostos, as mesmas falas, os mesmos programas de televisão. Eu precisava sempre experimentar sabores, lugares, invenções. Ter idéias novas era sinônimo de viver.
E tudo era muito simples e rápido. De olhos abertos, eu prestava atenção em todas as coisas, nas sutilezas do cotidiano, nas placas das ruas, nos sons, nas atitudes das pessoas, no balançar das folhas das árvores. Mesmo nos grandes momentos de tristeza e de solidão, eu procurava poesia, a musicalidade das coisas do cotidiano. Isso também era sinônimo de viver.
Terminadas as aulas na USP, não tinha jeito: esticava o polegar à procura de carona. Foram quatro anos assim. Isso porque, no primeiro ano, eu tomava o ônibus e ia direto até Pinheiros. Só então tomava a condução para o Cambuci.

Era uma hora e meia de trânsito. Nesse primeiro ano de faculdade, o medo do contato com o estranho era maior que a necessidade de economizar algum dinheiro para os gastos com os livros e as coisas do cotidiano.

E, numa dessas tardes da volta da universidade, desci do ônibus no cruzamento da av. Rebouças com a Faria Lima. Nesta eu tomaria o ônibus cujo letreiro era "Sacomã". O Sacomã era uma extensão do Ipiranga, um espaço muito agradável, com comércio popular, mas com um gosto, uma paisagem da década de 70 que nunca desapareceu. Por esse bairro eu sentia um cheiro forte de saudosismo, não sei bem do que, mas tinha no ar o retrato de uma saudade.

E bem naquela esquina da Rebouças com a Faria Lima encontrei uma novidade da época numa loja de sucos: suco de melancia. Encostei-me no balcão e pedi um copo e estava maravilhoso! Com doçura natural, o líquido de um avermelhado típico, transbordando num copo alto encantadoramente gelado me restabeleceu de um dia exaustivo: era muito estudo, leitura e responsabilidade, trânsito infernal e eu me sentia até com pouca coragem para chegar em casa. Mas o suco de melancia me fez criar alma nova.
Cheguei em casa com a novidade, alegre, com jeito até meio infantil porque, afinal, havia acontecido alguma coisa.

A minha descoberta não surtiu encantamento, curiosidade e alegria em ninguém. Afinal, em casa era praxe nada mudar nunca, ano após ano. Tudo era sempre igual e isso me angustiava. Eu achava que o suco de melancia poderia resolver parte do meu problema existencial, de estagnação das energias, mas não resolveu, e mais uma dose de desencanto. Garanti que faria o suco só para mim, já que ninguém se atreveria ao experimento, à grande novidade. No dia seguinte, fui direto ao liquidificador, com pedaços fartos e vermelhos da fruta. Eu pensava que estaria sozinha nessa empreitada, mas claro que não… não poderia faltar a companhia da minha avó. Com sua carinha redonda, simpática e feliz, me fez uma gentil parceira nos goles na hora do almoço. E eu me senti o máximo! Uma novidade! Um gosto novo! Uma coisa inventada e que poderíamos conhecer, saborear. O novo!

Eu achava que deveria sempre acontecer alguma coisa, embora eu não soubesse exatamente definir o que seria essa "alguma coisa", mas buscar o novo, a cor, o cheiro, a graça representa sempre uma maneira de sustentar a extraordinária e fantástica mania de viver, principalmente quando se conhece a solidariedade na busca com a presença da minha avó.

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