Terças-feiras, à tarde, no Belém

Meu nome é Ivan. Quando nasci, em 1962, no antigo Hospital São José do Brás, na Avenida Celso Garcia, morávamos no Alto da Mooca, mais precisamente na Rua Jupira, que é uma travessinha entre a Rua Tobias Barreto e a Siqueira Bueno. Passei minha infância, feliz, nesse mesmo bairro, amparado pelos avós italianos que vieram de Catanzaro, na Calábria, e minhas primeiras lembranças são dos idos de 1968, da casinha onde morávamos na "Vila Teixeira", encravada na Rua Serra de Jairé, fazendo e soltando "raia" – tipo de pipa – nos meses de vento (julho e agosto), com folhas de papel de seda e vareta japonesa compradas na papelaria do "seu" Ângelo, na Rua Itaqueri, brincando de peão (sela), montando e desmontando forte apache e jogando futebol de botão feito de celulóides de relógios, que infernizávamos os relojoeiros das redondezas a nos dar, e que depois eram revestidos, na parte interna, com durex das cores dos times.

Todas as terças-feiras à tarde descíamos nossa rua até a Serra da Bocaina, entrávamos na Rua Serra da Mantiqueira, e chegávamos à Rua Padre Adelino, já no bairro do Belém, na casa e mercearia da minha querida e muito saudosa avó, chamada Pepina, que chamávamos de "Vó da Venda", assim como o vô Mingo, de nome Domingos, era o "Vô da Venda". Moravam próximo ao antigo café seleto, quase em frente à vila Rosa Rosolia. Acho que posso até sentir se fechar os olhos o aroma do café sendo torrado quando chegávamos perto da casa da minha avó.

Era certo nessas tardes de terças-feiras encontrarmos, minha mãe, meu irmão e eu, minha avó na venda, fazendo "caça-palavras", enquanto meu avô dormia sua religiosa e, hoje sabidamente saudável, soneca, após o almoço. Esperávamos a chegada das minhas tias Amélia, Almelinda e Olga, esta com seus três filhos, meus primos Ivani, Simone e Mauro, para ir à padaria dos "Carillo", também "oriundi", e que ficava na mesma rua. Essa imagem, da padaria dos "Carillo", antigos vizinhos e amigos dos Paravatti, meus avós, é uma das mais marcantes de minha infância: a entrada calçada de pedras da vila dos "Carillo", por onde seguíamos passando pelas casinhas até a padaria, onde os fornos, também de pedra, assavam os pães italianos, de casca espessa e miolo macio, mas consistente, feitos de grano duro exatamente como na Itália dos nossos antepassados, e que eram colocados em caixas de madeira e separados por tipos: os redondos, pequenos e grandes, os de calabreza, torresmo e que levávamos para casa ainda quentes, perfumando o caminho.

Na mesa da cozinha simples da minha avó algumas conservas típicas da região do mediterrâneo, especialmente de berinjela, assadas com aliche no azeite, marinadas em vinagre de vinho tinto e temperadas com alho e pimenta calabreza, as tradicionais mortadelas, a erva-doce crua, chamada de finuccio, o café seleto quentinho. Depois, doces de vitrine, maria mole entre duas bolachas, canudos de doce de leite, guarda-chuvas de chocolates, todos da venda do "vô da venda".

Na volta, na esquina da Serra da Bocaina com a Serra de Jairé, até onde minha avó nos acompanhava no caminho de volta, uma parada na banca de jornais e eu, assim como meus primos, recebíamos dela, como presentes, gibis novos e usados… Pato Donald, Tio Patinhas e o cobiçado Almanaque Disney. Já era final de tarde. Hora de voltar e preparar a janta, fazer lição, brincar um pouco com os amigos de então, o Reynaldo, Vagner, Billy, este o caçula de uma família de Iugoslavos muito querida, Dona Margarida e o Sr. Seman. Hora de entrar para a casa e dormir.

E assim se acabava a terça-feira. Um dia especial que guardo na minha memória de menino.

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