Convidado que fora a frequentar Oficina Brás Ontem – Hoje -Imigração e Memória – da SEC, tinha que ir ao bairro do Brás, levar a ficha de inscrição assinada e a carta de interesse e intenções.
Na noite anterior à entrega não conseguia dormir, a ansiedade junto com lembranças da infância e do velho bairro vinham à mente. Atormentavam-me.
Sozinho na sala cabeceie um sono no braço do sofá. A ausência de sons tomou conta do cômodo, afora o ruído do estalar da madeira o silêncio era completo, sepulcral. Do sono viria o sonho.
Já em sonho notei uma palidez imediata tomar conta do meu rosto, assumindo um ar intrigado, como que se tentasse lembrar todo o passado naquele bairro.
Meu coração latejava acompanhado em seu ritmo pelas artérias da cabeça. Tudo girava seguido de uma dormência nos braços. Senti as lágrimas em formação saírem dos olhos, suprimi o choro. Tudo estava estranho. Luzes se apagando, cores se esmaecendo. Um torvelinho fantástico. Iniciei uma expiração com ruídos, mas o cheiro do carvão, vindo da cia. de gás entrou pelas frestas da porta, trouxe uma bruma acolhedora, estancou a tosse. Junto a esses sonhos, pensamentos, imagens, fantasias se apresentam: – correr atrás dos balões, rodar piões, as roupas quarando nos varais dos cortiços. No sonho a primeira paixão, o amor batendo aorta, chegando às matinês do cine Ideal, com Carlitos segurando o porta marmitas em movimentos rápidos retornando da fábrica, encontrar com a esposa, na porta do lar.
Cheguei a ir à Rua Caetano Pinto, o sobrado onde meus avós moravam. Eles ainda lá residiam. Minha avó tinha os cabelos pretos longos, enrolados e fixados na cabeça em forma de coque, um birote. Um rosto determinado, com os sulcos das rugas no rosto, mas um jeito bom de ser, como todas as avós. No guarda comida, bacalhau, jamon, hojas del laurel, rosquinha feitas com sambuca, e crostolis molhados no mel. No outro canto do cômodo meu avô, um homem alto e elegante no seu terno preto e chapéu na cor. Mesmo com os olhos tristes, ocultavam a felicidade.
Perdido, enovelado nas lembranças me retirei do sonho. Dia seguinte, logo cedo, a entrega da ficha.
Café engolido às pressas, só. Naquela segunda-feira, plena de sol, porém um ardido friozinho matutino impôs o uso do chapéu, ganho no aniversário. Iria estrear, até então havia usado somente no dekstop do meu computador. Criaria coragem em sair à moda antiga, sem que meus filhos rissem de mim.
Fui de ônibus, direto. Nos dias atuais a Mooca e o Brás, que estiveram tão juntos, hoje estão distantes.
Desci! Rua Cavalheiro. Calçadas repletas de calçados, havaianas e rasteirinhas. O choque foi brusco. Tomei um rabo-de-arraia. Segui em direção à OC – Amancio Mazzaropi- antigo colégio Padre Anchieta, escola das normalistas, não encontrei as ditas professorinhas, todas já subiram aos céus. À frente, paredes riscadas, obra de artistas modernos, grafiteiros drogados.
Ao lado da oficina, um aglomerado de pessoas, pensei: – deve ter caído balão. Não! Restaurante Pratão Feito. Um monte de desempregados, na fila dos esfomeados, ragu a R$1.00 (hum) real), com direito a pão; que o diabo amassou. Tudo organizado, divisórias separando a fome da vontade de comer.
Fui à procura dos cinemas antigos (Universo, Bruni Brás, Brás Polytheama), os salões estão ocupados. No espaço, novas igrejas evangélicas. No período diurno consulta espiritual. No noturno, "Noite dos Milagres". Tudo mudou, os milagres agora têm hora marcada. Recordei das cabras presas na cancela das porteiras do Brás. As ovelhas desgarradas continuam pastando, agora conduzidas por pastores impostores.
A Igreja São José do Brás (o carpinteiro), pai de Jesus, empobrecida, os tapumes todos quebrados, San Vito do Brás enricado. Ingresso da festa a R$ 35.00 (trinta e cinco reais), podendo comer um antepasto, um espaguete, um doce. Deixam sentar nas cadeiras.
Na antiga Metalúrgica Matarazzo, emprego do almoxarife Modesto, o armazém estava lotado, nas entradas das três ruas (Carneiro Leão, Visconde Parnaíba e Caetano Pinto). No local a Igreja Mundial do Poder de Deus. É preciso acreditar em alguma coisa, e essas coisas nunca faltam nesses lugares. Com isso pagam os micos de seus dízimos, com seus reais poupados, no fogo do inferno. O Apostolo Waldomiro temente a Deus, e que a blindagem de seu carro importado seja furada, por grossos calibres, das armas dos bandidos; e também fique na rua, da amargura.
Fui até a garagem dos bondes, segui os trilhos, revi sobrados antigos, saudades. Cheguei aos portões. Dentro? Bolivianos escravos, trancafiados por coreanos.
De tanto andar minhas pernas falham, um líquido meloso escorre da minha testa, um fraquejar generalizado por todo o corpo. Cansado de andar me deixo cair ao sabor dos acontecimentos, relaxo definitivamente, sem tentar me erguer. Não me ajudam, eu que sempre soube lutar, agora irei ficar olhando, junto aos outros, acendendo velas, fingindo que não é comigo.
Retornei pra casa, fiz um pouco de pipoca americana, sem prensar e deitei no sofá da sala. Antes liguei o som, então, para matar, ainda aquela saudade. Rapaziada do Braz com Jair Rodrigues, a primeira companhia musical, em seguida Adriana Calcanhoto, Mentiras! Somente a primeira estrofe: – Nada ficou no lugar…! Com o controle à distância passei para outra canção, Chega de Saudades… Vinicius de Morais, dormi novamente, peguei no sono, agora sem sonhar mais, e não acordar em pesadelo.
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